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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Mudança de Hábito: Sobre reconhecimentos

Em Neon: segunda-feira, 20 de abril de 2015


O momento social fervilha... Avanços são comemorados na mesma velocidade em que retrocessos alcançam níveis inimagináveis. Palavras antes usadas pontualmente e em seu sentido específico como “Preguiça” adquirem um tom mais amplo – Preguiça... Preguiça de pertencer à raça humana, preguiça de avançar numa lerda medida diametralmente oposta aos retrocessos. Preguiça de perceber que assim como a mentira,  a covardia, inveja e egoísmo nos constitui como raça e a define em proporção alarmante.

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Toda mudança causa resistência – É natural que seja assim. No entanto, a essência das resistências, os motivos pelas quais elas são geradas no bojo de nossa sociedade, haverá de causar tristeza profunda e verdadeira em qualquer pessoa ética e amorosa com a vida.

São resistências em sua grande maioria, hipócritas, covardes e absolutamente arbitrárias. Discorda-se por tradição, por manutenção das mesmices e acima de tudo por pavor de perder a posição conseguida em benefício próprio e muitas vezes calcado em sacrifícios dos “outros”.

Quem são os “outros”? Resposta fácil: São todos aqueles que por sua condição humana deveriam merecer o respeito e acesso ao crescimento global “daqueles”... Mas que por motivos diversos e muitas vezes cruéis, não conseguiram.

Se pobre é vagabundo e faz filhos pra obter a bolsa família, se famílias homoafetivas são aberrações e se o desejo da adoção dessas famílias é um indício da deterioração da sociedade e do aumento dos fracos, se as cotas são injustas e não um mecanismo de reparação (ainda que insuficiente), por consequência quem se regula pelos padrões heterossexuais normativos haverá de sentir uma sensação de superioridade e sentirá ameaça pela possibilidade de sua perda hegemônica. Ai que preguiça, ai que desânimo!

As chamadas minorias, por etnia, religião, condição de gênero ou poder aquisitivo, ameaçam - Os discursos da mesmice se metamorfoseiam e buscam um eixo de moralidade e ética simplesmente insustentável, porque ética só se sustenta com ética. Ética presume valores universais de alteridade e igualdade. Nada que não seja assim será ético.

O que proponho com essa reflexão é vitalidade, ânimo e força contra a preguiça que às vezes toma nossa alma e que desanima o coração.

Na contabilização entre avanços e retrocessos, penso que apenas o otimismo e a fé na evolução possam desestabilizar o empate técnico entre ganhos e perdas.

Qual de nós não haverá de querer justiça, honestidade e respeito? Mas para que assim seja esses valores devem se estender a todos. Enquanto isso não acontece, uma parcela de humanos haverá de manter ânimo e resistência pacífica, mas firme – Qualquer dia, que espero não demore, haveremos de sentir orgulho pela nossa humanidade.

Foto: Reuters/Jonathan Ernst/Reprodução

Por: Ana Kiyan - CLIQUE AQUI e leia mais artigos de Ana Kiyan

Ana Kiyan é pedagoga, psicóloga, Gestalt-terapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Docente na Pós-Graduação da USJT/SP e UNESP e Supervisora do Projeto de extensão Artinclusiva da UNESP. Autora de livros em psicologia, Gestart-terapia e novas condições de gênero e sexualidade.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mudança de Hábito: Do que precisamos para viver afinal?

Em Neon: quinta-feira, 29 de janeiro de 2015


O fim do ano passou. O consumo acelerado, as necessidades aumentadas e as frustrações por muitas limitações de consumo foram atualizadas...

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As contas se acumulam e a já folclórica dureza financeira do início de ano se instalou numa grande quantidade de lares e bolsos; talvez, seja uma boa época para repensar no que, de fato, precisamos para alegrar nossas almas errantes na busca inconstante de satisfação e alegria. Impossível (deveria ser...) que alguma falta seriamente considerada por necessidades humanas verdadeiras, fosse supridas por grifes, supérfluos ou desejos de consumo criados midiaticamente pelo capitalismo – Cria-se a necessidade para vender o desejo, a doença para vender a saúde, a falta para o consumo da abundância...

De quantas calças jeans precisamos? Quantas camisetas? Quantas Gigas devem ter nosso aparelho de conexão virtual? De que tamanho é a nossa fome e deveria ser nossa saciedade? Como diria a frase já meio antiga de uma música “Você tem fome de que?”

Tenho visto algumas pessoas determinarem o caminho oposto a essa gigantesca necessidade – Elas têm doado excessos, se limitam a uma televisão (quando muito), compram apenas o que irão consumir, caminham ao invés de andarem de carro ou metrô, reutilizam embalagens, reciclam lixo, plantam seus temperos... São mais simples e ao mesmo tempo mais evoluídos que a maioria de nós...

Estou convencida que às vezes a liberdade deve transitar na contra mão. Quantas vezes menos é mais? Na verdade, cada vez mais ando pensando que o que precisamos é luxo mesmo – Daqueles tão caros que dinheiro nenhum pode comprar – Paz de espírito, amigos verdadeiros, gargalhadas baratas, sonos reparadores, dinheiro (ainda que pouco) ganho na honra de executar um bom trabalho e suficiente para a viabilidade de uma vida simples, mas alegre, sopa quente na hora da gripe, abraços verdadeiros, amor confiável... Mais luxo que isso me parece uma exorbitância de nosso pueril mito, no qual uma vida boa de viver seja necessariamente dependente de poder aquisitivo capital.

Para não correr o risco de ser simplista, reconheço que o dinheiro compra coisas cuja sedução e encantamento surte imediato efeito... No entanto, tenho visto uma quantidade enorme de pessoas com muito dinheiro e entediadas com qualquer coisa que ele possa comprar. Não se trata de afirmar o jargão “dinheiro não compra felicidade”, mas o fato é que não compra mesmo. Pode comprar prazer e bem estar, mas não pode comprar um sentimento que depende apenas e tão somente de afeto. Além disso, convém lembrar que felicidade, como um estado permanente, não existe, para ninguém...

Não falo aqui do conformismo em relação ao que se pode melhorar, muito menos das condições injustas da desigualdade social – Essas devem ser combatidas em nome da evolução de nossa tão complexa e equivocada raça. Falo de tristezas inventadas pela massificação dos desejos...

Nesse primeiro escrito do ano, desejo que cada um de nós seja descaradamente rico e próspero naquilo que é mais sagrado e que dinheiro nenhum jamais haverá de comprar – O luxo de existir na alteridade, no afeto e convicção plena de que viver vale a pena, mas apenas e tão somente se for na abundância do verdadeiro amparo mútuo, do abraço que dissolve a solidão, no sorriso que ilumina um dia nublado – Que nenhum sistema consumista possa dizer do que precisamos para sermos felizes... Abraços carinhosos e fartos a todos!!!

Fotos: Reprodução e Louise Mensch

Por: Ana Kiyan - CLIQUE AQUI e leia mais artigos de Ana Kiyan

Ana Kiyan é pedagoga, psicóloga, Gestalt-terapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Docente na Pós-Graduação da USJT/SP e UNESP e Supervisora do Projeto de extensão Artinclusiva da UNESP. Autora de livros em psicologia, Gestart-terapia e novas condições de gênero e sexualidade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Mudança de hábito: Breve e triste reflexão sobre o contexto social

Em Neon: sexta-feira, 7 de novembro de 2014



Os últimos acontecimentos sociais encheram muitos de nós de incredulidade e tristeza...

Alguns dizem que tudo o que vem acontecendo se deve às posições contrárias e acirradas nas eleições; Humildemente discordo! Assim como as passeatas em junho do ano passado não foram por 20 centavos, é evidente que os infelizes fatos que abalaram nossa crença libertária e igualitária não foram apenas pelas posições partidárias acirradas – O processo eleitoral serviu de estopim para deflagrar um estado lastimável de denúncia sobre as diferenças ostensivamente mantidas entre castas. Veio à tona de um jeito inequívoco aspectos bizarros daquilo que muitos indivíduos tentavam guardar em seus porões... Egoísmo, narcisismo preconceito dos mais variados, xenofobia, homofobia, desrespeito às diferenças, pedido explícito de um retrocesso com a volta da ditadura...

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O fenômeno, de proporções (que eu diria, inimagináveis), atingiu muitas pessoas que simplesmente foram obrigadas a se avistar com suas próprias incredulidades... Atendo muitas pessoas durante a semana e vi não poucas (me incluindo) literalmente deprimidas - Como se o que estivéssemos assistindo fosse da ordem do surreal e bizarro. Questionei nossas ingenuidades... Mas afinal, os indícios não estavam todos claros? Ao contrário do que era esperado, os crimes homofóbicos aumentaram, os nordestinos, infelizmente (tidos historicamente como cidadãos de segunda categoria), ocupam em grande número ainda, lugares sociais ditos subalternos (eles constroem apartamentos em que não podem morar, elas são empregadas domésticas na casa de “sulistas”), numa seleção para trabalho, entre negro e branco, o segundo ganha a vaga. Mulheres ainda são menos bem remuneradas que homens e funk não é considerado cultura, embora seja produzido no bojo dela mesma...

Deixo claro que essa reflexão não passa necessariamente pela escolha de cada um – O que me entristece são os motivos das escolhas em grande proporção... São pessoais, absolutamente pessoais, no ruim sentido do egoísmo e da falta de alteridade – Vejo nitidamente que uma grande parcela de pessoas deseja do fundo de seus corações egoístas, que as diferenças se mantenham... Cada um no seu quadrado! Penso que ser humano é escolher o melhor que possa atingir a maior quantidade possível de pessoas, ainda que isso não inclua a ela mesma.

Penso ainda que a verdadeira e ética humanidade deveria nos habitar e contemplar necessariamente um desejo verdadeiro de igualdade e melhoria para todos... Assim, sonho que viver, seria mais feliz...
Muitos argumentos que tenho ouvido passam pela questão (triste e decepcionante) da corrupção – Mas quando ele não houve? Bom saber que pelo menos agora ela está sendo denunciada e punida, ainda que muito falte para extirpar esse horror da sociedade – Não foi pelos 20 centavos, não foi pela eleição, não foi pela corrupção... Foi porque infelizmente, ver um país mais igualitário ameaça lamentavelmente muitas pessoas...

O Facebook, instrumento social que acredito ter mudado as relações humanas para sempre, tem mostrado toda a sorte de desrespeito e achincalhamento por pessoas que pensam como eu... Para muitos, o senso de respeito às diferenças foi perdido - A cada dia nos chamam direta ou indiretamente de imbecis, idiotas, burros e sei lá mais o que... É interessante notar que algumas pessoas se arvoram no direito de entrar nas publicações de outras para destilar raiva... Pois a democracia não presume justamente liberdade de expressão dentre outras coisas? O problema é que liberdade de expressão virou sinônimo direto de desrespeito. Não é possível que depois de tanta “evolução” (?) uma confusão tão primária ainda seja feita...

Pois a cada momento, de posse de tantos acontecimentos incrivelmente arbitrários, aqueles que pensam como eu, mais se fortalecem! Por mais que corramos o risco de amargar novas decepções, por vezes vale a pena seguir o coração...

Não julgo opiniões contrárias, apenas lamento posições truculentas... Aliás, como uma paulistana qualquer, peço desculpas e lamento profundamente o show de incivilidade que tem sido dado por aqui...

Abraços carinhosos de norte a sul - Somos brasileiros... Espero jamais ver outra vez o desrespeito que vem imperando...

Por: Ana Kiyan

Ana Kiyan é pedagoga, psicóloga, Gestalt-terapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Docente na Pós-Graduação da USJT/SP e UNESP e Supervisora do Projeto de extensão Artinclusiva da UNESP. Autora de livros em psicologia, Gestart-terapia e novas condições de gênero e sexualidade.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Mudança de Hábito: Sobre maternidade e paternidade

Em Neon: terça-feira, 22 de julho de 2014


Ser pai, ser mãe, solteiro ou casado com alguém do mesmo sexo, o que importa é amar sua família!

Acredito que muitos aspectos da modernidade têm sido involuções na vida humana... Hoje em dia, amigo é qualquer um que lhe adicione ao Facebook. Saudade não é mais o que era nos tempos passados, nem relação afetiva, nem respeito ou consideração verdadeira.

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Contudo, saudosismo sem proposta de evolução me parece bobagem. É bem verdade também que a hipocrisia, muitas vezes, tem cedido à consciência, que novos pensamentos e oportunidades, antes inimagináveis, também.

Assim tem sido com a abertura humanizada de algumas pessoas que reconsideram a bobagem engessada daquilo que outrora era ditado como certo e errado.

Hoje, já podemos falar e viver mais livremente. Tipos de famílias constituídas de maneira alternativa às tradições (que eram e são muitas vezes hipócritas e esvaziadas de sentido afetivo verdadeiro) aparecem cada vez mais.

"Nasci com sorte, tenho duas mamães!"
Família, segundo minha concepção, é todo e qualquer núcleo constituído por seres que se amam, se defendem e se protegem das agruras do mundo externo. Bichos que somos, família é quem mora na mesma toca (ou em outra...) mas que sabe como lamber a ferida do outro e como fazer uma canja na hora da gripe. Mais abraça do que briga, mais aceita do que critica...

Antes e invariavelmente, formada por papai, mamãe e filhinhos, talvez com um bicho de estimação e gerânios na janela, agora, espero eu, cada vez mais, formada apenas pelos motivos que deveriam ter sido os únicos desde sempre – afeto e solidariedade.

O modelo vigente tem demonstrado ser romântico, arcaico e geralmente falso... Família de verdade pode ser constituída das mais variadas formas possíveis: uma mãe e nenhum pai, dois avós e um tio, duas mães, dois pais, uma mãe e um pai... Quem deveria se importar com isso? Família deveria ser definida acima de qualquer coisa, como um núcleo íntimo de amor e proteção.

"Eu só tenho um papai, mas tudo bem! Ele cuida de mim com todo o amor que eu preciso!"
Maternidade e paternidade, penso eu, deveriam ser também revistos, à luz da consciência e afeto, e não da tradição heterossexual normativa.

Elejo aqui a maternidade como uma referência para essa reflexão – penso que do mesmo modo que condição de gênero não passa pelo que se tem biologicamente no meio das pernas, a maternidade também não – maternar é um termo que deve necessariamente ser compreendido sob um ponto de vista mais humano e abrangente – apenas assim nossas consciências poderão ser ampliadas e nenhum amor será derramado no vazio inutilmente. Deve ser um termo ressignificado exaustivamente, até que seu sentido retorne ao lugar de onde nunca deveria ter saído – maternar é amparar, amar, educar... É estar pelo outro que necessita de continência, apenas porque é mais frágil, porque veio ao mundo depois de nós ou em condições mais frágeis... Quanto mais pudermos oferecer ferramentas éticas, valores compatíveis com a gratidão de viver no amparo, generosidade e alteridade, mais teremos maternado algum ser vivente...

"Minha mãe é a maior! Somos só eu e ela, mas nos amamos muito!"
Tenho sido mãe e filha muitas vezes... Mãe de minhas filhas, de meus pais, amigos, clientes da psicoterapia, plantas e animais... Filha de meus animais, plantas, amigos, e pais...  Coisa boba e pobre fechar um conceito tão lindo e amplo numa condição de espécie ou gênero!

Nesse mundo, veloz e cheio de novos paradigmas, ando estranhando quem não entende a simples e afetiva equação: Pessoas juntas, que se amam e querem o bem, dão certo!!!!!!!!

"Nasci loiro e tenho um pai branco e outro negro. A gente se ama pra caramba!"
Maternar provavelmente seja a condição mais humanizada de nossa existência; por dois pais, duas mães, três avós ou qualquer outra configuração... Amor e cuidado jamais tem contra indicação!

Sejamos mães de alguém, apenas assim acredito que saberemos a real essência do amor...

Sou pelas novas e amorosas configurações possíveis... Tem tanta criatura abandonada nessa vida... Desejo que quem puder, materne sempre... Seria absurdo pensar, a essa altura de nossa história, que algum tipo de afeto verdadeiro causasse danos a alguém... Estragos estão ligados a abandono, solidão e desamor... Jamais à constituição familiar amorosa; que sejamos na medida das nossas possibilidades cuidadores e vigilantes da vida...

Abraços carinhosos!

Por: Ana Kiyan

Ana Kiyan é pedagoga, psicóloga, Gestalt-terapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Docente na Pós-Graduação da USJT/SP e UNESP e Supervisora do Projeto de extensão Artinclusiva da UNESP. Autora de livros em psicologia, Gestart-terapia e novas condições de gênero e sexualidade.



DICA EM NEON: VOCÊ CONCORDA COM ESSE ARTIGO?
Aproveitamos o texto de nossa colunista Ana Kiyan sobre FAMÍLIA, para pedir seu voto na enquete da Câmara dos Deputados que pergunta: Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família?

O PL 6583 estabelece que família é a união entre um homem e uma mulher, excluindo diversas famílias (pais/mães solteiros, casais homoafetivos, etc).

Digam "NÃO" a esse projeto de lei discriminatório!!!

CLIQUE AQUI E VOTE NA ENQUETE







sábado, 26 de abril de 2014

Mudança de Hábito: Alguma coisa (ainda) está fora de ordem!

Em Neon: sábado, 26 de abril de 2014


"A ignorância sempre foi a base do preconceito"

Queridos leitores:

Corro o risco de me repetir nessa pequena reflexão. Ela se assemelha, ou complementa, em alguns aspectos, a primeira publicação que escrevi AQUI para o EM NEON – e desde já, peço desculpas por isso; mas confesso, depois de ler o que escrevi não me dei por satisfeita (e acho que nunca vou me dar!). Enquanto algo não se resolve, deve voltar de milhões de formas, até que as posições possam ser verdadeiramente revistas. Mas prometo que na próxima participação mudo de assunto!

Depois de tantos fatos históricos que nos constituíram como humanos, continuo quebrando a cabeça para encontrar uma explicação plausível, para que muitas pessoas ainda tentem definir a qualidade dos seres-humanos, pelas escolhas ou condições de seus desejos erótico-afetivos. Essa condição de escolha heterossexual, normativa e imposta é certamente obsoleta, arbitrária e empobrece nossa raça humana. O que interessa saber quem deita com quem? Quem causa desejo em quem? A vida, sempre tão maior que isso, cobra posições muito mais relevantes que essa. Quem ampara quem? Quem escuta a queixa dolorida de quem? Qual mão se estende na hora da dor?

Conheço pessoas maravilhosas e horrorosas em todas as condições de gênero. Definitivamente isso não define afeto nem humanidade. Mas acho que quem pensa que isso define a qualidade do ser humano, se define pelo pior que há entre nós. Arbitrariedades proferidas em nome de uma moralidade hipócrita e obsoleta.

Certa vez, em uma aula de psicologia, um aluno (bem intencionado, diga-se de passagem) me perguntou se ele, como “ser humano pensante”, não tinha o direito de não aceitar a homossexualidade, desde que ele mantivesse uma postura de respeito diante dessas pessoas (homossexuais); minha resposta causou certa polêmica, pois afirmei com veemência que não, ele não tinha esse direito – poderia até sentir e pensar assim (lamentavelmente), mas do ponto de vista ético essa posição seria sempre indefensável; explico: Ninguém tem o direito de não aceitar alguém em função de sua condição de gênero – podemos sim não aceitar uma pessoa em função de seu caráter duvidoso, crueldade, ou por atitudes nocivas a outros seres vivos. Mas jamais a condição de gênero deveria ser critério para a aceitação de outrem. Pergunto-me porque essa posição indecente e desonesta ainda perdura nos tempos de pós-modernidade – difícil o avanço das consciências – temos ainda um pé na idade das trevas. 

A ignorância sempre foi a base do preconceito; a moral hipócrita ensejada por muitos pensamentos religiosos também (e aqui não há a intenção de criticar crenças, mas sim sistemas). Dessa forma, em nome da família e bons costumes, ainda se apregoa e até se incentiva o preconceito – foi no bojo da imbecilidade que se constituiu a crença de que o que se faz na cama com alguém pode definir sua qualidade humana. Desejos normatizados e autorizados pela sociedade, acabam por constituir pessoas ditas “decentes” e mais facilmente controladas e que, portanto, causarão certamente menos “distúrbios” na estrutura construída, com o intuito do controle fácil das massas. Quando se controla e normatiza o desejo, todos os outros controles ficam mais fáceis de alguma forma.

Lembremos que conduta “ilibada” é sinônimo de conduta correta, mas na verdade, ilibado quer dizer sem libido. Ou pelo menos com libido normatizada, se é que isso pode ser possível! Fica evidente, por esse simples exemplo, a visão propagada ao longo da história que o desejo e erotismo são subalternos a outros desejos e manifestações humanas.

Por isso também, o controle perverso da Igreja e do Estado constituíram regras para a implantação desse sistema de valores – muitas vezes o incentivo ostensivo ao asco por aqueles que foram denominados diferentes e desviantes, prosperou. Ainda agora, está acontecendo. Ainda agora... Que o digam todos que sofrem diariamente pequenas e grandes violências contra suas singularidades.

Que possamos falar e nunca calar diante das moralidades imbecis. Que sejamos éticos, que possamos entender que moral não é, muitas vezes, sinônimo de ética. 

No próximo encontro falo porque sou absolutamente favorável a novas constituições familiares. Incluindo adoção. Abraços carinhosos!!!

Por: Ana Kiyan

Ana Kiyan é pedagoga, psicóloga, Gestalt-terapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Docente na Pós-Graduação da USJT/SP e UNESP e Supervisora do Projeto de extensão Artinclusiva da UNESP. Autora de livros em psicologia, Gestart-terapia e novas condições de gênero e sexualidade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Mudança de Hábito: Tolerar a tolerância – cada vez mais!

Em Neon: quarta-feira, 12 de março de 2014

Com muita alegria recebi o convite dos amigos Eduardo Moraes e Maurício Code para escrever impressões pessoais sobre a vida e o viver, no novo e necessário site “Em Neon”, que agora vai ao ar. Quisera eu e tenho certeza, muitos dos que leem esse escrito, que esse tipo de reflexão não fosse mais necessária. 2014 período chamado Pós-convencional – consciências se ampliando, tantas novas possibilidades se apresentando... E ainda assim, iniquidades contra seres humanos, que ousam assumir suas identidades na plenitude, continuam acontecendo. Atrocidades que assumem uma forma moralista, hipócrita e cruel nos chegam aos ouvidos quase que diariamente – pessoas que em nome da moralidade e bons costumes, defendem a agressão, opressão e covardia em relação às diferenças que suas torpes humanidades não toleram.

Tolerância por sinal é um termo que não tolero na maior parte das vezes – tolerar parece pressupor “superioridade”, “benevolência” – coisa de “pessoas do bem”, que aceitam as minorias, os desajustados e desviados do melhor caminho. Pois afirmo que não tolero os que toleram a diversidade das condições de gênero. A essa altura, desconsidero qualquer posição que se pretenda defensável em relação ao que é certo e errado, especialmente quando essas opiniões baseiam-se em argumentos ignorantes, preconceituosos e arbitrários.

É execrável qualquer posição moral que defina a qualidade de um ser humano pelo que ele vive em sua vida erótico/afetiva. Anseio pelo dia em que a mania idiota e soberba de alguns seres - ditos humanos - de proferirem o que é certo e errado, seja banida do dicionário da decência humana verdadeira.

Lamento e me envergonho por cada arbitrariedade proferida em nome da moral e bons costumes. Aliás, lembremos que ética não é sinônimo de moral e “bons costumes”, nada tem a ver aprioristicamente com “costumes do bem”. 

Se há de haver tolerância, que possamos tolerar os que toleram. Exercício duro e talvez ainda necessário. Normal não é sinônimo de natural- percebo que até pessoas bem intencionadas acabam perpetuando o preconceito absurdo enraizado no bojo da moral hipócrita. Frases como “tenho amigos gays” ou “tenho amigos negros” me viram do avesso. A natureza não aceita ofensa: qualquer humano que assim se pretenda deve considerar as manifestações humanas nas suas mais variadas formas.

O afeto e desejo é terra que a moralidade e racionalidade não pisam. Os que se atrevem a tentar colonizar os anseios de seus próximos, que corram riscos, cada vez maiores, de precisarem ser tolerados.

Que possamos exercitar de tal forma nossa doçura, a ponto de tolerarmos os que toleram.

Abraços carinhosos!

Foto: Divulgação/Folha do Sul

Por: Ana Kiyan

Ana Kiyan é pedagoga, psicóloga, Gestalt-terapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Docente na Pós-Graduação da USJT/SP e UNESP e Supervisora do Projeto de extensão Artinclusiva da UNESP. Autora de livros em psicologia, Gestart-terapia e novas condições de gênero e sexualidade.




 
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