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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Beto Papo: Fernanda Misailidis & Patrick Angello, uma dupla genial

Em Neon: sexta-feira, 7 de abril de 2017


Enfim, a estreia da parceria aconteceu com sucesso no palco do Centro Municipal de Referência da Música Carioca no dia 11 de janeiro passado. No show chamado "Mosaico de Mim", Fernanda uniu sua vocação de representar ao de cantora e, o que se viu, foi um repertório de delicadas melodias, quase todas, do Patrick que, habilmente ia conduzindo as inspiradas palavras dela, construindo, a cada número, um painel afetivo de lembranças e fantasias, fragmentos de vida.

“Esse projeto surgiu da ideia que o Patrick incutiu em mim de começar a escrever e compor, colocar para fora a enxurrada de emoções e pensamentos que eu vivenciava”.

Segundo ela, cada pessoa é um imenso universo a ser desvendado, são espelhos infinitos que guardam histórias, identidades, lembranças de momentos vividos, sentimentos... Inspirados nisso, criaram um espetáculo com alma, identidade e tipicamente brasileiro. Foram tardes e algumas madrugadas inteiras na criação.

Para dar o cunho teatral ao espetáculo, escolheram o olhar sensível do diretor Márcio Vieira. A banda, de formação jazzística, contou com Didier Fernan (baixo), Paulo Camilo (bateria) e Patrick Angello (violão de sete cordas), que foi o responsável pelos arranjos e direção musical. Foi acrescentada a flauta de Alexandre Maionese.

O show também contou com uma participação especial, o cantor Beto Caratori. Fernanda elogia: “Beto é uma figura carismática, grande cantor de presença inesquecível, voz tão suave e que também já realizou parcerias  com o Patrick”.

E é, justamente, no show desse cantor, que será lá no Centro de Referência, dia 19 de abril (quarta-feira), que a dupla poderá ser vista.

Patrick Angello está na direção musical e acompanhamento. Fernanda Misailidis é uma das participações especiais.

Vale a pena conferir.

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Fotos: Divulgação

Por: Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Beto Papo: Final surpreendente

Em Neon: sexta-feira, 7 de outubro de 2016




Num cinema em Botafogo lotado, eu assistia “Elena”, de Andrey Zvyagintsev quando, prestes a acabar, a personagem título caminhou até uma janela e, aí... A tela se apagou.

A luz geral se acendeu e todos se entreolharam sem entender. Um senhor disse: “Acabou”.

Com aquela declaração e, apesar da dúvida, aplausos ecoaram. O público acanhado foi se levantando e deixando o recinto, alguns comentando e até elogiando o tão inesperado final. Mas uma senhora de vermelho, funcionária da sala, interpelou para avisar sobre a falha: “Quem tiver paciência, que espere. Vamos regularizar e passaremos o restante do filme”.

Metade aceitou. Eu, inclusive. E voltamos aos nossos assentos. Lembrei-me de outra feita, quando, num cinema do bairro de Santa Teresa, o projetor em pane atrasou o início de uma comédia brasileira, que eu nem estava tão animado para assistir. Enquanto o técnico cuidava dos reparos, uma simpática mocinha veio e sorteou pães e docinhos caseiros para nos entreter.

Não ganhei um pãozinho sequer. Mas aquilo foi bem mais divertido que o próprio filme.

No cinema de Botafogo, naquela espera por Elena, escutei outro homem se queixar de que já estávamos ali esperando há mais de dez minutos e nada. A galera foi se irritando e começou a bater palmas, a assobiar, a reclamar. Nada. Nada acontecia. Nem aconteceria, deduzimos. Algumas suposições, piadas foram inventadas sobre o que Elena poderia fazer ou ver através da janela. Por fim, inconformados, decidimos evacuar o recinto. Eu já atravessava o saguão com alguns, quando alguém gritou que as luzes haviam se apagado de novo.

“Consertaram! Vão passar!”

Corremos depressa para dentro, eu me sentindo um retardado.

A tela se iluminou. E o que vimos foi o minuto e meio que faltava do final daquela película: Elena se aproximando da janela para olhar e... Vieram as legendas de encerramento.

Fora isso, nada, nada, nadica de nada mais aconteceu.

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Foto: Divulgação

Por: Beto Caratori - CLIQUE AQUI e confira outras crônicas de Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Beto Papo: A velha do piano

Em Neon: sexta-feira, 4 de setembro de 2015

“Pelo galo não cantar, o dia não vai deixar de raiar”.
Li em voz alta a frase retirada do livro “Almanhaque” do Aparício Torelli (Barão de Itararé). Tornei a repeti-la, enquanto Simone me trazia um copo com água. Eu acabara de chegar esbaforido ao seu apartamento em Ipanema.
- Pronto. Eis a frase do nosso dia.
Aquilo se convencionou. Todas as vezes que eu adentrava o apartamento dela, abria displicente aquele livro e colhia uma frase no rodapé da página, como uma forma de celebrar nosso encontro. Minha loura companheira de bagunças veio com a novidade:
- Você não imagina o que eu descobri. Sabe o Cassino Atlântico? O shopping?
- Sei. O que tem?
- Tem uma velha tocando piano lá na meiuca, de tarde.
Achei graça daquela frase: “Uma velha tocando piano lá na meiuca”. Ela riu junto.
- Um piano naquele shopping sem graça?
- Vamos até lá ver? Que tal? Alayde vai também. Já deve estar chegando.
Topei, apesar de surpreso. Simone não era muito fã de sair com dia claro.
Animada, foi lá dentro vestir a bata indiana colorida, espetou o brinco de pena de pavão, que eu lhe dera de presente, e cobriu os lábios com um batom vinho. Assim que a amiga Alayde chegou, rumamos para o Posto Seis de Copacabana. Já na entrada do shopping, ouvimos o dedilhado de música se espalhando por aquele espaço de lojas, a maior parte delas voltada para estrangeiros, agências de viagem e câmbio, comércio de pedrarias e artesanatos caríssimos. Descemos a escada rolante.

Na praça de alimentação no subsolo, mesas e cadeiras vazias indiferentes ao piano, que era executado com maestria por uma senhora vistosa, o cabelo caprichado no laquê. Sentamo-nos numa mesa bem ao seu lado, pedimos cafezinhos ao entediado garçom e nos aquietamos, ouvindo e analisando a gravidade daquela fisionomia com os olhos cravados nos desenhos do pentagrama, mãos magras e ágeis, divididas entre as carícias no teclado e a virada de página.

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Quando a música terminou, aplaudimos.
A senhora ruborizou-se com o inusitado, porque aplausos não aconteciam ali. Fez breve movimento de cabeça para agradecer, remexeu partituras e mandou outra mais lenta que aquela. Repetimos as palmas no final, com o eco delas se espalhando, indo lá para cima, para o piso principal. Pessoas surgiram nas grades curiosas.

Uma terceira música veio. Depois outra e mais outra. Todas lindas, mas lentíssimas. E nós lá no incentivo. A questão é que, a cada número executado, uma tristeza profunda foi se apoderando da gente. Tínhamos chegado tão animados ali, mas, no decorrer da récita, a melancolia bateu junto com uma sonolência que outro café não cortaria.

Se havia algo a se cortar, seria o pulso.
- Tá me dando vontade de chorar – disse Alayde.
- Em mim também – concordou Simone, soltando um breve riso.
E a pianista concentrada, taciturna, triste, tristonha, tristonhezima, tristonhenhezima.
O lindo virara chato. Chato demais. Antes que cometêssemos suicídio ou assassinato, esperei o último acorde da marcha fúnebre para propor:
- Que tal uma coisa mais alegre? Uma valsa animada... Sei lá, uma...
- Achei que vocês estavam gostando – cortou a artista, um pouco amuada.
- Estamos gostando sim. Mas, que tal dar uma variada no repertório? A senhora toca outro gênero?
Ela remexeu nas partituras e perguntou:
- O que sugere?
Antes que eu dissesse, mandou com maestria o “Noturno” de Chopin. Enveredou para “Quatro Estações” de Vivaldi. Imediatamente, recordei-me de uma amiga querida, a excelente pianista Beatriz Licursi, grande intérprete de Ernesto Nazareth. Sugeri um chorinho e ela atacou “Odeon”, do referido compositor, emendando com “Atraente” da Chiquinha Gonzaga. Percebi gente espiando de novo lá em cima. Recuperávamos o fôlego dos aplausos. Ela animou-se, ainda mais quando novos ouvintes, perto de uma dezena talvez, se ajeitaram naquelas geladas cadeiras de alumínio.

Vieram assobios e gritos de “Bravo”.
Fiquei imaginando a razão de tão sóbria senhora tocar num ambiente daqueles. Não combinava com ela. Uma praça de alimentação imensa, fria, inóspita.

Antes de comunicar o breve intervalo, dedilhou famosa composição de Scott Joplin.
Nossa “entertainer”, nesta altura do campeonato, transformara-se por completo. Deixara a sisudez e sorria contente, sempre agradecendo com seu movimento tímido de cabeça. Veio sentar-se conosco.
Maria Edilza, este era seu nome, enviuvara de pouco e morava num quarto e sala na Rua Julio de Castilho, na companhia apenas de um poodle já velhinho. Uma amiga a recomendou à administração do shopping para “alegrar” as tardes de quinta-feira, uma distração para aquela que, além do marido, perdera um filho em acidente de carro. Nossa nova amiga embaçou os olhos ao relatar o fato. Tratei de quebrar o clima:
- E MPB? Toca um Chico, um Caetano?
- Puxa... Seria ótimo! – animou-se Alayde.
- Pô! Só falta vocês quererem que ela toque samba e funk – brincou Simone.
- Funk não – respondeu Edilza na calma – Mas farei uma surpresa para vocês.

Voltou ao piano, recolheu aquele bolo de partituras velhas e enfiou tudo numa bolsa. Pôs as mãos no teclado e “Minha Namorada” do Carlos Lyra e Vinícius se fez presente. Nós cantamos quase aos berros e o público, que crescera, fez coro. Uma lista de pedidos foi desfiada. Mais meia hora, eu já estávamos de pé, agarrados ao piano e cantando “Foi um Rio que passou em minha vida” do Paulinho da Viola.

Extrapolamos limites e o horário da audição.
Maria Edilza fechou o piano, recolheu seus pertences e nós a acompanhamos até a rua para beijos e abraços calorosos.
- Valeu pela força – agradeceu emocionada – Estava precisando da alegria de vocês.
- Nós é que agradecemos pela tarde maravilhosa. E voltaremos na próxima quinta.

Cumprimos o prometido e retornamos na semana seguinte, inspirados pela frase “Ingratidão é apenas falta de memória”, colhida do “Almanhaque”.

Assim que chegamos ao shopping, percebemos mudanças radicais na nossa concertista. Usava roupa mais descontraída e o cabelo se livrara do laquê. As melodias tristes de outrora deram lugar a “Chega de Saudade” do Tom e do Vinícius.

Ao nos ver, os olhos dela se iluminaram. E a alegria se repetiu. Porém, ficamos algum tempo sem podermos voltar lá. Coisas da vida ou por esquecimento mesmo.

Até que um dia, combinei nossa ida ao Cassino Atlântico. Eu iria direto de casa. Mal atravessei a porta corrediça do shopping, notei o silêncio. Desci a escada rolante e vi apenas Simone tomando seu café num mar de mesas e cadeiras desocupadas.
- O que aconteceu? Cadê a Dona Edilza? Cadê o piano?
- Não sei. Esse garçom com cara de bunda não sabe explicar. Acho que foi demitida.
- Caramba... Que pena. E nem pegamos seu telefone.
- Será que a culpa foi nossa?
- Culpa? Culpa de que, Simone?
- Sei lá. Ficamos aqui pedindo sambas e no maior carnaval com a velhinha, coitada.

Pedi meu café e o sorvi refletindo sobre aquele vazio, as lojas praticamente desertas, mas funcionando normalmente, como sempre.

Lembrei-me da frase colhida de quando estivemos pela primeira vez naquele shopping. Realmente, com ou sem o som do piano da Dona Edilza, nada mudaria ali. A vida segue e o sol vai raiar inevitavelmente. Pagamos a conta e saímos lamentando muito. Assim que entrei no apartamento de Simone, como não podia deixar de ser, abri o livro do Barão de Itararé.
E a frase do nosso dia era:
“Este mundo é redondo, mas está ficando chato”.

Imagens: Reprodução Internet

Por: Beto Caratori - CLIQUE AQUI e confira outras crônicas deste colunista


Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Beto Papo: Rio 450 tons de cinza

Em Neon: sexta-feira, 6 de março de 2015


Vou pela calçada apressado, ziguezagueando os abobados das caras enfiadas nos celulares. São zumbis. Sobrevivo ao empurra-empurra do povo inzoneiro ocupando a composição do metrô que chega. Indiferente aquilo, uma dona esparramada por dois assentos conversa aos berros a educação de presídio, com outra que atocha biscoito maisena goela abaixo da filha. Na estação Central, mais gente com um destino comum, a praia. Galera barulhenta. Esmurram o teto, as paredes, janelas. Gritaria, risada, som alto de funk, aperto, calor infernal.

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Livre, já na superfície, adentro o saguão do Cine Roxy em Copacabana. Ainda mantém o astral de dias mais sossegados e glamourosos que a cidade viveu. Uma mulher oferece toalhinhas para os que esperam o início da sessão. Um menino vende balas. Há também pedintes circulando à vontade, até a chegada do mais maltrapilho deles que aborda as elegantes senhoras segurando-lhes os braços perfumados. A boca de poucos dentes ri e pragueja pela esmola negada. Para compensar, decide invadir uma das salas. O segurança sai do seu torpor e expulsa todos os mendigos.

Horas depois, caminho pela Rua Figueiredo Magalhães e ouço comentários sobre arrastões, gente se queixando da violência, debates dos que são favoráveis com os que querem o impeachment da presidente. Pivetes passam rindo, empunhando garrafas plásticas naquelas calçadas imundas. Na esquina, uma turma aplaude a gorducha da voz esganiçada a interpretar músicas breganejas num videokê.

Embarco na estação do metrô da Siqueira Campos. Cantarolo “Saudades da Bahia” ao relembrar Rosa Passos que, quase um ano atrás, nas areias de Copacabana, encantara uma plateia que nunca ouvira falar de sua existência. Uma melancolia toma conta de mim. Ninguém sabe de mais nada.

Apesar da ignorância, da violência, do descaso, das obras superfaturadas por toda a parte, apesar de todo esse caos, ainda amo minha cidade. No vagão cheio do metrô, percebo uma senhora a enxugar as lágrimas com a gola da camisa, enquanto é amparada por outra, talvez irmã dela, de tão parecidas. Comovido com a cena, modifico meu repertório e mando Baden e Vinícius num volume baixo, mas audível: “Pra que chorar, se o sol já vai raiar, se o dia vai amanhecer? Pra que sofrer, se a lua vai nascer, se é só o sol se por? Pra que chorar se existe amor...” As duas mulheres ficam quietas, concentradas no chão como que meditando. Eu me calo e a sofredora olha para mim e diz: - Não vou chorar mais hoje não, tá? Ela sorri. Apesar de tudo, ainda há emoção, há sensibilidade no Rio.

Imagens: Reprodução Internet

Por: Beto Caratori - CLIQUE AQUI e confira outras crônicas de Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Beto Papo: Papai Noel Camicase

Em Neon: quarta-feira, 17 de dezembro de 2014



Muitos anos atrás, eu era integrante do coral da Riotur e nosso regente Mario nos avisou da apresentação natalina que faríamos em Motas, lugarejo rural situado entre Teresópolis e Friburgo. Uma grande festa estava sendo preparada para as crianças do local com muita música, brincadeiras e finalizando com a chegada do Papai Noel.

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Partimos numa manhã chuvosa de domingo em ônibus de viagem junto com uma trupe circense e um grupo de pagode. A viagem transcorreu tranquila, silenciosa até o trecho da serra em que deixamos a rodovia e nos metemos por pedregosa e lamacenta estrada, a cortar pequenos roçados de casinhas humildes.

Paramos diante de um campo de futebol. Tudo um lameiro só.
A chuva fina não dava trégua.
Uma senhora se plantou na porta do ônibus e, para cada um que saltava, ela entregava uma caixinha de Toddynho, um pacote de biscoito goiabinha e uma laranja.

Mais a frente, outra senhora remexia com colher de pau uma água escura a borbulhar num caldeirão.
Resolvi bisbilhotar:
“O que temos ai?”
“O almoço de vocês”, respondeu ela muito séria. “É chuchu e cenoura daqui mesmo. E não tem carne não, viu?”
“Nem uma carnezinha?”
“Não”, enfatizou com ar de pouca amizade.
Aquela sopa não despertava qualquer entusiasmo.

Imediatamente, fomos encaminhados na direção de uma casa grande, avarandada, instalada lá no alto do morro, nosso local de concentração para aquecermos as vozes até a hora do evento. Um subidão com escorregões aqui e ali, lama, bofes saindo pela boca, até alcançarmos a bendita. Cheguei pedindo água para uma mocinha e me joguei numa cadeira de varanda.

Suspeitei que aquele talvez fosse um programa de índio. Mas me investi de animação.

Refeito da escalada, observei a sala com móveis rústicos, parede de pedras e lareira. Depois voltei meus olhos lá para baixo, e descobri o pequeno tablado pintado de branco instalado numa das extremidades do campo de futebol. Nosso palco.

O dono da casa, que na época, era presidente da Riotur, veio nos saudar. Disse para ficarmos a vontade, para pedirmos o que quiséssemos.

Iniciamos nosso aquecimento vocal e a revisada nas músicas. Nessa função, a hora foi passando, passando. Bateu fome e a lembrança da tal sopa que nos aguardava lá embaixo. Não pensei duas vezes. Assim que vi a empregada na sala, pedi pão. Ela foi e voltou com uma cesta cheia. Meus colegas aderiram à causa, foram na onda, caímos dentro. Enquanto mastigávamos, vimos crianças lá embaixo se perfilando e ocupando o gramado molhado. A chuva dera trégua.

A trupe de circo entrou em ação fazendo evoluções, enquanto se ouvia o som dos pagodeiros saindo de dentro de um grupo escolar.

Mario avisou que era hora de irmos.
Fizemos a descida na aventura, um escorrega daqui, outro de lá. Ninguém caiu.
Atravessamos o campo de futebol na ponta dos pés, saltando ponto a ponto para não nos sujarmos. Muita água, muita lama. Com dificuldade, os naipes se ajeitaram naquele palco alto, porém, pequeno. Mal podíamos nos mexer, com o risco de alguém cair dele. Nosso regente foi obrigado a ficar de fora, embaixo. Explicou:
“O negócio é o seguinte. Assim que o Papai Noel aparecer, a gente canta.”

Ficamos paradinhos esperando. A trupe circense saiu de cena, todos cobertos de lama. A criançada logo se aglomerou na nossa frente, cada qual portando Toddynho, biscoito goiabinha e uma laranja. Estavam inquietos, ansiosos. Nós, imóveis, esperando o sinal.

Até que alguém apontou lá para o morro.
“É o Papai Noel! Viva! Papai Noel está chegando!”
Avistamos a charrete da aguardada criatura apontando lá na ladeira. Só que vinha em descida desabalada. O condutor, apesar da roupa vermelha, gorro e barba branca, não se assemelhava muito com o gorducho bom velhinho. Era um mulato magrinho, bem mirrado e gesticulava nervosamente. Algo estava fora do normal.

“Meu Deus”, alguém comentou. “Esse Papai Noel não está vindo rápido demais?”
Nosso regente fez seu gesto de comando e disse:
“Vamos lá, coro?”
E começamos a cantar:
“Blém, blém, blém, blém... Toca o sino blém, blém-blém, anunciando que Cristo nasceu em Belém, Belém, que nasceu em Belém...”

Até que a charrete chegou e varou o campo de futebol em velocidade impressionante. Foi direto pra cima da garotada que se desbaratou. Uma correria. Pânico.

O que se dava com Papai Noel? Endoidecera?
E nós lá cantando:
“Blém, blém, blém...”

Papai Noel riscou por nós igual bala e foi circundando o campo, mal se equilibrando no estribo, mal dominando as rédeas. A barba branca se desgrudara, ficando pendurada apenas numa orelha. Acenava e gritava algo, mas não o tradicional “Hou! Hou! Hou!”.
Finalmente entendemos que seu grito era de desespero:
“Socorro! Socorro! Não consigo parar o cavalo!”

A charrete deu uma volta completa pelo gramado, espalhando lama para todo lado e, novamente, indo na direção da criançada a correr, a se espalhar, achando graça, todas imundas. As professorinhas desesperadas.

Mario, assustado, não sabia o que fazer. Não interrompia a regência, virando a cabeça para trás o tempo todo para ver o desfecho daquilo.

E nós, obedientes, no nosso “Blém, blém, blém... Toca o sino blém, blém-blém...”
Até que uma das rodas da charrete entrou num atoleiro interrompendo a carreira ensandecida. O cavalo foi logo dominado e acalmado.

Só quem não se acalmava era o Papai Noel. Revoltado, desgrudou a barba da orelha e saltou naquele lameiro. A calça vermelha ficou marrom. Uma imundície.
“Isso é o que dá fazer as coisas de graça”, reclamou. “Ganhei o que com isso?”
Foi só falar pra ganhar uma laranja na cabeça varejada por uma criança sapeca.
Deixou o campo rápido e praguejando contra o universo.
Nosso “Blém-blém-blém” é que demorou um pouquinho pra acabar.
Dali, fomos direto para a sopa.

Por: Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Beto Papo: Gente que a gente vê por aí

Em Neon: terça-feira, 11 de novembro de 2014



Da entrada do sobrado, meu primo me chamou a atenção gritando:
- Corre aqui! Corre aqui! Vem ver quem está passando!
- O que foi? Quem é?
- Olha lá! É o mosquito elétrico.
- Mosquito elétrico?
Na calçada oposta, um sujeito bem mirrado, boné escondendo os olhos, camiseta, bermuda abaixo dos joelhos, meias, tênis, bolsa a tiracolo, andava a passos largos, quase correndo.
Parecia personagem da Disney competindo em marcha atlética.
- Mas, ele... Ele é uma criança, não é? – perguntei.
- Nada. Já é homem feito.
- Jura? Qual será a idade dele?
Enquanto questionávamos seu tempo, ele nem dava tempo. Ia longe até sumir no final da rua.

Durante alguns anos, vimos o Mosquito Elétrico passar sempre com aquele jeito de menino assustado.
Qual seria o motivo de tanta pressa? Colégio? Trabalho? Seria entregador?

Outro que via e ainda vejo com certa constância, é um ruivo gordinho e sardento lembrando Ferrugem, aquele comediante mirim sumido. Porém, um Ferrugem sisudo, abstraído dos que estão a sua volta, impossível de se cumprimentar. Topo com ele em todos os lugares: shows, cinema, praia, shopping, mercado. E ele sempre com o olhar perdido.

Recentemente, às vésperas da Copa, uma reportagem da TV mostrou uma galera da Tijuca ornamentando suas casas para os jogos. A câmera deu um giro pela rua e lá estava ele, paradinho, quieto, observando, quem sabe, querendo ser mais um desses manjados papagaios de pirata que se postam atrás da repórter. O tempo passa, e eu vou acompanhando, até pelo vídeo, as mudanças gradativas na fisionomia do ruivo, sem jamais termos trocado uma palavra sequer. Nada sei dele. Um desconhecido conhecido.

Depois que você se fixa num endereço e, todos os dias, repete trajetos, vai esbarrando nas mesmas pessoas. Para algumas, vou desejando meu “Bom dia”. Saúdo as meninas da Fábrica de Bolos, a secretária do curso de línguas, sempre com a atenção na rua, e o jornaleiro, que agora sei que se chama Alexandre.

Quando me mudei para a Tijuca em 2008, comecei a cruzar com um homem de cabelos grisalhos e olhos claros. Aí, eu embarcava para Saquarema e, ao saltar no shopping de lá, dava de cara com ele. Retornava para o Rio e, de novo o sujeito atravessando a Avenida Maracanã. Fiquei intrigado com aquilo até descobrir que eram irmãos gêmeos e ambos meus vizinhos. Um, na Tijuca. O outro, em Saquarema. Vi os dois juntos numa roda de samba dos "Escravos da Mauá", no Largo da Prainha, local onde só encontro determinadas pessoas. Ali ou nos blocos de carnaval. Fora isso, elas desaparecem como por encanto.

No supermercado, já fui atraído algumas vezes pelo assoviar forte de uma senhora de oitenta anos. Uma figura fascinante. Está sempre alegre com sua música. A assoviadora puxa papo com todo mundo, repete sua idade e diz não depender de ninguém. E o povo na fila troçando da tagarela, taxando de maluca. Adorei conhecê-la.

De fato, existem muitos maluquinhos por aí. Que durezas teriam enfrentado na vida para que se tornassem assim? Lembrei-me da negra Vitória a vagar pela Rua General Roca. Nos meus tempos de Grajaú, uma senhorinha, agarrava-se ao portão de uma clínica psiquiátrica e gritava “Rádio Grobooo!”, fingindo segurar microfone. Quantos ouvintes teria seu programa?

Esses dias, uma amiga fez inventário de tipos curiosos que vagam ou vagaram pela cidade, aqueles que ela se lembrou: o profeta Gentileza, o Beijoqueiro, o malabarista da bola do Arpoador, o ginasta do Fundão, a travesti bunduda Catileia e o versador de partido alto Denny de Lima, ambos de Vila Isabel. Também incluiu um sujeito que só anda de sunga pela Tijuca, outro que puxa carrinho de brinquedo e uma doida que anda com cachorros obesos. Na minha lista de pessoas fora da casinha, tenho a minha doida dos cachorros. Só que são pequenos poodles de chapéu, vestido e sapatinhos, que vão dentro de um carrinho de bebê empurrados pelo calçadão de Ipanema e ela, uma senhora de cabelos cor de neve, a entoar cantigas de ninar.  Os animais são válvulas de escape para aqueles que, já de longe, vê-se que não têm a normalidade do geral. De perto, ninguém é normal mesmo. Só os gatos e os cachorros.

Ah... Os animais... Não importa quem. São companheiros dos ricos e dos mendigos. Muitas vezes vi pela Lapa um desvalido empurrando carroça abarrotada de papelão com quase uma dezena de cães por cima e me admirava do carinho, do cuidado como ele tratava os bichos. Falando em mendigos, uma velha moradora do meu prédio saía de manhã toda arrumada, pintada, toda bonitinha ao mercado, igreja, o que fosse. Mas, quando entardecia, colocava o vestido ao contrário com o saco dos bolsos a mostra, sujava o rosto, enfiava o braço numa tipoia e ia esmolar junto ao relógio da Gloria. No dia seguinte, estava digna de novo.

Tive outra vizinha, essa não trocava de roupa nunca. Sempre zanzando pelo corredor do prédio de camisola transparente, calcinha e sutiã. De vez em quando, tocava minha campainha e pedia para usar meu telefone. Beleléu total. Eu procurava me manter distante de vizinhança matusquela, que de doido basta eu, mas a loucura, se não está em nós, de algum jeito, chega junto. Fiquei arrasado ao saber que uma amiga, querida colega de curso de línguas, perdera a razão. De repente, começou a ser vista pela rua, daqui para lá, de lá para cá, desgrenhando os cabelos e falando sozinha. Ganhou fama em Botafogo e virou “A doida da Voluntários”. Procurei suas filhas e fiquei sabendo que era um processo irreversível. Uma pena.


Noutro dia, ao saltar na estação Saens Peña do metrô, um rapaz bem trajado, barba alinhada, abordou-me na escadaria de saída se dizendo argentino e que sofrera um assalto:
- Estoy perdido! Estoy perdido!
Dei-lhe umas moedas. No dia seguinte, lá estava ele de novo com o mesmo texto:
- Estoy perdido! Estoy perdido!
Aproximei-me e disse:
- E aí, malandro? Não se achou ainda?
Porém, com o passar dos dias, vi que não era o vagabundo que eu imaginava. Diariamente, lá estava ele pedindo na entrada do metrô e repetindo “Estoy perdido, estoy perdido”.
Foram semanas naquilo. Sua aparência se deteriorando, a barba crescendo, as roupas imundas se rasgando. Até que um dia, ele sumiu.


A loucura da cidade. A cidade e suas vítimas.
Já que não é possível, nem saudável viver no isolamento, vamos seguindo neste hospício.
Saio de manhã, distribuo meus cumprimentos às meninas dos bolos, à secretária do cursinho, ao jornaleiro. Atravesso uma galeria da praça e avisto, de longe, um homem pequenino de cabelos grisalhos a conversar com alguém. Usa bermudão abaixo dos joelhos e sacola com a correia atravessada no peito. Eu me aproximo, mas ele dispara, súbito, igual foguete.
Apesar da falta do boné, eu o reconheço. É o Mosquito Elétrico.

Imagens: Internet

Por: Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

domingo, 10 de agosto de 2014

Beto Papo: Da arte de começar tudo outra vez

Em Neon: domingo, 10 de agosto de 2014


O Largo do Curvelo, na arte de Hudson Silva, ilustra o texto com as lembranças de Beto Caratori
Relendo sobre a morte do artista plástico Jorge Selaron, inevitavelmente, me teletransporto para meu tempo de morador de Santa Teresa. O chileno, cujo sobrenome era Morales, veio para cá em 90 e escolheu aquele bairro para morar e deixar sua obra impregnada, eternizada ali, como a famosa escadaria de azulejos que nos leva até o convento. Fecho os olhos e me vejo novamente lá, em uma das minhas quase diárias caminhadas noturnas com minha cockerzinha preta. Vou subindo a Joaquim Murtinho, enquanto aprecio as luzes da cidade lá embaixo, o relógio da Central, o Cristo Redentor. Chego ao Largo do Curvelo e ultrapasso o bonde, ainda apinhado de gente e conduzido pelo motorneiro Nelson.

Alguns conhecidos me cumprimentam, minha vizinha Goretti vai apressada do outro lado da rua com seu labrador Fred, mas Milla me reboca sem dar a mínima para ele. Escuto os sons dos sobrados, os televisores quase todos sintonizados no mesmo canal.

Penso muitas coisas: um show cansativo meu no SESC, uma conversa com o cantor Jorge Vercilo, compras necessárias para a casa, questões corriqueiras do prédio e a venda meteórica de uma casinha-luminária que produzi e considerei a mais horrível de todas. O mais incrível foi a compradora ter me encomendado outra exatamente igual.

Recordo também a visita a um amigo, que me mostrou ansioso um acervo recém-adquirido, gravações inéditas colhidas pelo músico Tião Neto (ex-integrante da banda de Sérgio Mendes): poesias, cantos folclóricos, discursos de Kennedy, a voz de Louis Armstrong e a primeira gravação de uma música brasileira, um maxixe de nome Sans Souci. O registro é de 1888 em Portugal. Também a surpreendente Carmen Miranda cantando em francês para a trilha sonora de um filme. Ter escutado aquilo tudo, me fez lembrar meu pai. Não entendi a razão. Como vivo buscando explicações, tento achar a lógica, mas meus devaneios se interrompem no Largo dos Guimarães, ao esbarrar numa conhecida, que me revela, constrangida, que se separara do marido e que mora num apartamentinho no Centro. Garante que agora encontrará a felicidade. Logo nos despedimos. Vou pensando que meus pais formavam um casal inseparável. Aí, uma luz se acendeu na minha mente. As gravações antigas... Todos os domingos, durante nossas idas ao Governador Iate Clube, na Ilha, meu pai sintonizava o rádio do carro no “Projeto Minerva”, onde ouvíamos os cantores do passado (Noel Rosa, Mario Reis, as irmãs Batista, Francisco Alves...).

Passo pelas lojinhas, bares, desenhos do Selaron e a Padaria das Famílias, com Milla me puxando cada vez com mais força, na medida em que nos aproximamos da rampa em zigue-zague que nos levará até a Rua Triunfo. Dali em diante, ela vai solta, correndo e balançando as orelhas. O segurança da rua está lá, distraído com seu radinho de pilhas dentro da cabine. O rádio ainda é uma força. Mesmo com a televisão e o advento da internet, as pessoas o escutam.

Minha primeira participação radiofônica aconteceu graças ao compositor Homero Ferreira. Foi ele quem me levou ao programa do Adelson Alves na Rádio Globo, depois de me surpreender cantarolando dentro da piscina lá do sítio.

De um casarão no alto da Triunfo, cachorros nervosos quebram o sossego da rua latindo para Milla, que vai de cá para lá a fuçar as fendas dos paralelepípedos.

Olho para o céu estrelado. Paira melancolia.

Lembro o dia da morte do meu pai. Vê-lo deitado, imóvel, a certeza de que não estava mais ali. Apesar da dor, não verti lágrima. Orei, pedi perdão pelo filho que não fui, pelo homem que ele esperava que eu fosse e agradeci as oportunidades que me deu na vida. Muitos anos antes, justamente quando meu pai viajava a São Paulo, para exames cardíacos, eu fazia minha estreia na Rádio Globo. Cheguei ao estúdio, ainda sem saber o tom de “Começaria tudo outra vez” do Gonzaguinha e, de posse do microfone, agradeci a oportunidade e dediquei a récita ao meu pai. Imaginei que ele, em terras paulistanas, me ouvia. Minha mãe garante que sintonizaram. Se eles ouviram ou não, não posso garantir. Preferi acreditar que ele escutara cada palavra cantada por mim.

Ele se operou logo depois. Outras cirurgias vieram. Entre uma e outra, os saraus lá de casa com o Homero Ferreira ao violão, minha mãe cantando lindamente, meu pai sacando do seu trompete. Eu assistindo. Raramente cantava.

Oito dias após sua morte, assisti a uma sessão de cinema, cujo filme tratava da difícil relação entre pai e filho. No final, eles se entendiam, se aceitavam, se respeitavam. Não resisti e chorei muito. Nossa vida é passageira e pode ser tão simples de ser vivida. Nós é que a complicamos, a tornamos insuportável. Mas a vida tem seus recomeços e abre muitas possibilidades.

Milla dá sinais de querer ir embora. Ponho-lhe a peiteira e vamos retornando ao Largo dos Guimarães. Ouço sons vindos do pátio de um colégio: uma turma pratica capoeira. O bonde com o motorneiro Nelson passa agora vazio. Desço a rua. O dedilhar de chorinho ao piano quer ser mais audível que os televisores no Jornal Nacional.

Os sons do bairro e as imagens na minha cabeça: Carmen Miranda gingando, a escadaria do Selaron, Louis Armstrong e meu pai com seu trompete. Um trompete que não deixou registro.

Vida que segue, não é? Melhor que seja com um dia novo a cada dia enquanto der.

Milla avista o portão do nosso prédio se aproximando e puxa mais forte.

“Calma, princesinha! Calma! Amanhã a gente começa tudo outra vez.”

Fim da conversa no bate-papo.

Imagem: Hudson Silva
Por: Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Beto Papo: Praia do Futuro x Histórias Íntimas x Hoje eu Quero Voltar Sozinho

Em Neon: quarta-feira, 4 de junho de 2014


Há alguns dias, sai sozinho e ansioso para ver “Praia do Futuro” do Karim Aïnouz. O filme aborda o estranhamento de se viver num país que não é o seu, sentimento experimentado pelo salva-vidas Donato que, após fracassado resgate na Praia do Futuro, se deixa levar por uma relação sexual com o alemão Konrad e vai viver com ele em Berlim, deixando para trás seu irmão pequeno Ayrton, que o admira como herói. Anos depois, o irmão crescido se aventura indo até lá para um acerto de contas.

O filme não me comoveu, as personagens não me ganharam, não me fizeram gostar mais ou menos delas. Em quase duas horas, a estória se arrasta com poucos diálogos. Claro que não se pode exigir dos nossos atores brasileiros uma rapidez e fluência no idioma alemão. Paira uma melancolia em locações condizentes com a trilha sonora de Volker Bertelmann, cenas de sexo beirando o agressivo e nudez desnecessária.

Apesar do que citei, o filme tem belas tomadas. Gostei muito da que se passa num aquário gigante. Wagner Moura mais contido e, pelo tempo que está afastado da TV, sem os vícios que tal veículo impõe. Achei bom. Não posso dizer o mesmo do ator Clemens Schick. Minha atenção é despertada lá pelo final, quando surge o extraordinário Jesuíta Barbosa. Ali o filme dá uma crescida. Porém, nessa altura do campeonato, eu já estava torcendo para acabar. Finalmente acabou. Agora temos um brasileiro se igualando a um desses em mostras de filmes gays insossos.

Para compensar a desilusão com Praia do Futuro, tive o prazer de assistir ao “Histórias Íntimas” com direção dos brilhantes Julio Lellis e Breno Pessurno, roteiro e montagem de Andre Damin baseado no best-seller de Mary Del Priore, exibido no Centro Cultural Justiça Federal no Rio de Janeiro.

Com duração de duas horas, Mary Del Priore nos conta, de forma bem humorada, as mudanças no comportamento sexual do brasileiro, da chegada dos colonizadores por aqui, até os dias de hoje, ilustradas pelas interpretações, muitas vezes debochadas, hilárias de atores como Gonçalo Ladeira Dias, Cássio Pandolfi, Cristina Prochaska, Nadia Lippi, Sonia Clara Ghivelder, Mitzi Evelyn, Léa Garcia e tantos outros, intercalando-se aos preciosos depoimentos de Jean Wyllys, Lucinha Araujo, Nélida Piñon, Titi Muller, Marília Pera e Ivan Lins.

Divertido e esclarecedor, apresentando questões polêmicas como o papel da mulher na sociedade, o racismo e a homossexualidade, é um filme para se ver muitas vezes.

Como resultado, ganhou o prêmio de Melhor Filme no festival “O Cubo”.

Outro que recomendo e que ainda está em cartaz é o “Hoje eu quero voltar sozinho”, dirigido e roteirizado pelo ótimo Daniel Ribeiro com produção da Lacuna Filmes.

Estrelado, na sua maioria, por jovens, foi ganhador do Prêmio Fipresci, concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, e é baseado num curta feito pelo mesmo diretor, quatro anos antes. O longa-metragem é uma delícia de se ver e fala muito mais da descoberta do amor do que, propriamente, da sexualidade.

Léo, um adolescente cego, se apaixona por Gabriel, seu colega de classe, recém-chegado do interior, despertando o ciúme da amiga Gi. Filme leve, delicado, sensível, divertido, bonito, com atuações excelentes dos jovens atores Guilherme Lobo, Fábio Audi e Tess Amorim, e com participação de outros mais experientes na arte de interpretar, como a admirável Selma Egrey. Assim como “Histórias Íntimas”, é filme para se voltar sozinho ou acompanhado ao cinema muitas vezes.

Por: Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

ESTREIA/Beto Papo: A maior cantora do Brasil

Em Neon: segunda-feira, 19 de maio de 2014


Quem será, afinal, a maior cantora do Brasil? No primeiro texto da coluna "Beto Papo" está a resposta.
Com grande alegria, apresentamos a você mais um nome de peso para o time Em Neon, Beto Caratori!
O rapaz que é escritor, jornalista, compositor e cantor, atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa e hoje se apresenta com sucesso pelos palcos boêmios da vida.
Beto Caratori, que é um bem conceituado profissional, aceitou nosso convite para assinar uma coluna descontraída, com cara de bate papo gostoso, íntimo e  por vezes visceral.
Essa coluna ganhou o nome de "Beto Papo", um trocadilho com "Bate Papo".
Nesse espaço, Caratori contará suas experiências, expressará suas opiniões, falará sobre assuntos cotidianos entre outras coisas, utilizando uma linguagem aconchegante e com gostinho de quero mais.

Em seu primeiro texto, Beto Caratori nos fala sobre "A maior cantora do Brasil". Quem será, afinal?

Confira abaixo o primeiro texto da coluna "Beto papo":

A maior cantora do Brasil

Recentemente, um amigo querido publicou em rede social que assistira ao show de "Fulana de Tal" acrescentando: “Pra mim, ela é a maior cantora do Brasil. Simples assim”.

Não achei nada simples. Ao contrário, bem complicado, ainda mais nesses tempos de radicalismo, onde é comum se fechar uma questão com um “simples assim”.

Meditei sobre quais seriam os requisitos para se qualificar uma artista como “a maior cantora do Brasil”. A explicação do amigo é que, além do timbre, afinação, limpidez vocal, "Fulana de Tal" tem presença de palco e produção impecável. Tudo bem. Salve ela.

Fui direto ao Youtube assistir seus vídeos esperando quedar-me de paixão. Não foi o que aconteceu. Conclui: mais uma jovem cantora, como tantas que estão por aí, de voz bem colocada, graciosa no cantar e que, talvez, como algumas, tenha a sorte de ser rica para bancar bom empresário e refinados produtos.
Mas daí, dizer que é a maior cantora do Brasil...

Logo depois, recebi a notícia de que Maria Bethânia ganhara mais uma vez o prêmio de melhor da MPB. Cantora extraordinária, reconhecida pela qualidade do trabalho, mantém prestígio conquistado quando veio substituir Nara Leão, no polêmico show com Zé Keti e João do Vale, cantando Carcará. Bethânia chega a ser uma entidade. Alcione, quase todo ano, ganha o prêmio de melhor intérprete do samba. Ambas merecem. São hors concours. Impossível ouvi-las e não pensar que são maiores que tudo.
Seria uma delas “A maior cantora do Brasil”? E aí? Qual das duas? As duas? Empate?

Amo Elis Regina. A “Pimentinha” buscava a perfeição, era irada. Em “Saudade do Brasil”, num fôlego invejável, cantando e dançando, era uma coisa de se abismar. Depois que morreu, ganhou a alcunha de “Maior cantora do Brasil”. Surgiram algumas discordâncias e uma enxurrada de novas cantoras querendo ser Elis. Mas eis que surge Maria Rita.
Outras querem ser Clara Nunes. Chamada de “Guerreira”, sofreu rejeição de muitos, que achavam que sua voz límpida, cristalina, não combinava com o gênero musical por ela escolhido. Hoje é modelo para muitas cantorazinhas.
E agora? Quem escolheremos? Clara ou Elis?

Muito se vasculha no baú de outra grande personalidade da nossa cultura: Clementina de Jesus. Também conhecida como “Rainha Kelé”, a ex-empregada doméstica, de voz peculiar, foi descoberta tardia. Merecia coroa e título de nobreza.

Bibi Ferreira, no alto dos seus noventa anos, mantém vozeirão impressionante e ainda fazendo shows. Não lhe dão o devido valor. Bibi é soberana. Seria ela a maior?

E Gal Costa? Voz inconfundível. Muitos ainda a chamam de absoluta. A “Fatal”.

A escolha da maior cantora do Brasil vai ficando mais difícil com esses exemplos.

Lá fora, Rosa Passos, maravilhosa intérprete, é endeusada. Aqui, pouquíssimos a conhecem.

Elza Soares, eleita no exterior como “A cantora do século”, teve carreira de lutas e sem justa homenagem em nosso país. Marlene, cujo título é “A Maior”, não é lembrada pelos meios de comunicação. A mídia nacional prefere glorificar cantoras de axé como "Beltrana" que se acha a tal, ou premiar "SicrAnitta" como a melhor do ano.

Será esse um dos pré-requisitos para se alcançar o título de maior cantora? Estar na mídia? E ser jovem, gostosa, ar de periguete, ter extensão vocal absurda para berrar qual americana gospel num “The Voice” desses de televisão?

Lembrei-me agora das irmãs Tetê e Alzira Espindola. Vozes excepcionais. Essas são perfeitas no que fazem. E o que dizer das cantoras de atitude como Ana Carolina, Cássia Eller, Zélia Duncan ou as de vozes delicadas como Claudette Soares, Doris Monteiro, Zezé Gonzaga e Fernanda Takai? Podem ambicionar título de maiores cantoras do Brasil?

Incluo também aquelas com quem já dividi palco, como Joyce, Marisa Gata Mansa e Ademilde Fonseca, a “Rainha do Chorinho”.

Outro dia, vi Leny Andrade em entrevista à Angela Ro Ro. Cantou à capella “Rio”, do Menescal e Bôscoli, sem escapar um grau sequer da afinação. Foi de arrepiar.

Pensei comigo:
“Será ela a maior cantora do Brasil?”

E as surpreendentes Zizi Possi, Celia, Claudia e Leny Eversong? E Dolores Duran, que foi fantástica crooner de baile? E Marisa Monte impecável?

Uma amiga vem e me diz que, para ela, a sua preferida é Amélia Rabello. Um caro jornalista cita Maysa, Vanusa e Maria Alcina.

Atormentado pela questão, meus dedos resolvem percorrer a sequência de LPs bem organizados na minha estante. São muitos. Passo por Zezé Motta, Violeta Cavalcante, Trio Esperança, Simone, Rosita Gonzalez, Rita Lee, Quarteto em Cy, Nora Ney, Marina, Maria Creusa, Leila Pinheiro, Lana Bittencourt, Joana, Jane Duboc, Inezita Barroso, Hebe Camargo, Frenéticas, Fafá de Belém, Ellen de Lima, Elba Ramalho, Claudia Barroso, Carmelia Alves e Aracy de Almeida, a preferida de Noel.

Releio as passionais Dalva de Oliveira, Nana Caymmi e Ângela Maria. Examino um da Áurea Martins com o Luiz Eça. Preciosidade.

Escolho um disco que amo e o coloco para rodar. E escuto a voz de Elizeth Cardoso cantando “a última esperança, a esperança divina de amar em paz...”. Impossível não me emocionar. Elizeth é mesmo “Divina”. Assim como nossas demais divas, a “Enluarada” está acima de qualquer rótulo, qualquer titulação.

Inebriado com tamanha beleza, acabo me esquecendo do foco desta tal matéria. Ah... A "Fulana de Tal".
Como é mesmo o nome dela? Deixa pra lá. Que seja bem festejada como a maior cantora do Brasil.

Por: Beto Caratori

Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.
 
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