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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A arte drag já se emburguesou no Brasil?

Em Neon: sexta-feira, 2 de dezembro de 2016



Kiô e eu ficamos nos perguntando se a arte drag já se emburguesou no Brasil? A arte drag vem da periferia. Se analisarmos o seu surgimento nos EUA, a gente vai ver que ela vem de uma cultura do gueto. Como isso tudo surgiu lá nos EUA, é claro que lá a história de construção da identidade e da cultura drag é muito mais longa que a nossa cá no Brasil.

Lá, a arte drag se popularizou e com isso, ela saiu do gueto, já que ser drag é algo que diz respeito ao gênero das pessoas. Se diz respeito ao gênero em intersecção com a arte, então todo mundo pode ser drag: rico ou pobre.

Mas o que eu quero dizer é que muitas vezes somos taxadas de closeiras. Isso quer dizer que a drag está muito interessada no close. E mais do que isso, essa ideia pode levar a pensar que a drag é vazia e fútil. O close, por si só, é mal visto. É preciso ir além do close. É preciso dar duro.

Eu, pessoalmente, não concordo que o close seja futilidade. Pois, rica ou pobre, principalmente as pobres, todas temos de saber lidar com os TRUQUES. É um truque aqui na maquiagem, é um truque ali na peruca, é um truque acolá num acabamento para o figurino e outro para toda a performance. Esses truques são necessários pois nem sempre há material disponível, nem sempre há condições financeiras. E é preciso transformar ou exagerar ou realçar o gênero sempre! A cultura drag surgiu no gueto, na pobreza.

Drags periféricas não frequentam graduações de artes plásticas nem são ratas de academia. Quase toda arte drag vem da própria cultura drag. Uma cultura que já existe há muitos anos. Como vc faz seu pirelli? Como vc se vira com os contornos? Qual o melhor custo-benefício?

Nossos truques são baseados numa tradição, que está disposta a se renovar sempre, sempre que um novo truque surgir (melhor e mais viável: e note que isso é relativo para cada pessoa). Nossos truques, nossas performances, nossa presença é close, mas é um close também baseado num trabalho duro. A diferença é que o trabalho da drag, baseado numa tradição periférica do truque, não é reconhecido como um trabalho, pois não está majoritariamente baseado na técnica burguesa.

O conjunto de técnicas historicamente burguesa é denominado “trabalho”, “dança”, “teatro”, “balé”, “ópera” etc...

O conjunto de técnicas historicamente drag é denominado “close”.

Voltando a pergunta inicial, podemos dizer que lá nos EUA a arte drag já está emburguesada faz bastante tempo. Surgiu na periferia, mas se popularizou. Já no Brasil, a arte drag nunca foi exclusivamente periférica. No Brasil, a arte drag já nasceu híbrida. Quem tinha condições de importar maquiagens e perucas? Hoje, ontem e sempre haverá drags ricas e pobres! A diferença é que as drags ricas podem optar por seguir o caminho tradicional dos truques ou dar o seu truque através do seu dinheiro (que pode comprar dos melhores materiais, dos melhores cursos, dos melhores marketings), enquanto que a produção da drag pobre, baseada no truque, conta com muita criatividade de transformação e espera a sorte grande de um dia ficar reconhecida.

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Por: Jaqueline Furacão

Fotos: Valerie Baeriswyl e Arquivo Pessoal
 
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