Fotos: Hanna Sanna
Josephine Baker hipnotizou plateias em Paris, Nova York e outros palcos mundos afora, tornando-se um dos grandes símbolos da dança do século 20. O que nunca pode nem poderia imaginar é que estará no maior espetáculo da terra, em fevereiro deste ano. Encarnada na sambista e especialista em Moda Ana Beatriz Genuncio, que volta à Vila Isabel este ano para representar a dançarina afro-americana no enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, em homenagem a Heitor dos Prazeres, ícone do samba e da cultura brasileiros.
Ana Beatriz conhece muito bem o chão que pisa. Foi rainha de bateria da Vila Isabel em 1991, com apenas 16 anos. Naquele instante, foi a consagração de uma história de amor que começou cedo. Ela reinou à frente da bateria da Azul e Branca durante três anos, inclusive no histórico desfile “Gbala, viagem ao tempo da criação”. Ficou tão ligada ao bairro de Noel Rosa que foi morar lá. Ana conta que sempre foi apaixonada por carnaval.
“Eu gosto de carnaval pela possibilidade de me fantasiar. Tem todo um ritual. É o momento de você ser quem você não é”, conta a moça.
“Ser quem você não é” também foi uma especialidade de Josephine Baker, inclusive fora dos palcos. Além de artista consagrada, a negra americana que encantou Paris atuou como espiã na Segunda Guerra Mundial. Sim, é isso mesmo! Corajosa, ela lutou contra os nazistas recolhendo informações para a resistência francesa. Passou as (lindas!) pernas nos alemães e, ao fim do conflito, foi condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Francesas e a Medalha da Resistência. Ainda foi homenageada, pelo mítico presidente Charles de Gaulle, com o grau de Cavaleiro da Legião de Honra.
Ana Beatriz vai surgir no desfile num tripé. Ela já vem treinando forte para viver Josephine na Sapucaí.
“O movimento dos braços dela é muito característico”, detalha, contando o que vai acrescentar a seu já natural samba no pé.
Por sua formação em moda, Ana já assessorou trabalhos de escolas e inclusive participou da coordenação do carnaval de um grande portal da internet.
O convite para voltar à Vila Isabel aconteceu por causa da proximidade com os festejados carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A parceria vem de outros carnavais. Ana viveu a Padilha da Saia Rodada no campeoníssimo desfile “Fala, Majeté! As sete chaves de Exu”, de 2022.
“Os meninos são espetaculares. Fazem uma pesquisa muito séria, vão fundo no tema, e apresentam lindos espetáculos”, empolga-se Ana, que viveu uma grande aventura com a dupla quando eles estavam na Grande Rio: “Lembro que a gente se reuniu durante a pandemia. Cada um sentado num canto distante, com as ideias do enredo (sobre Exu) sendo apresentadas”.
Tudo bem que Josephine Baker viveu muitas vidas em uma só. Mas o leitor pode se perguntar. O que ela tem a ver com o Heitor dos Prazeres? É que o grande artista brasileiro era contratado do mítico Cassino da Urca, que recebia com frequência os mais aplaudidos artistas estrangeiros e brasileiros, como a própria Josephine e Carmen Miranda.
Por uma incrível coincidência, Ana, que é muito bem casada, obrigado, tem como criador de sua coreografia um antigo namorado. Anderson Dionisio costumava ir buscar a então namorada Ana Beatriz em suas aulas de dança. Apaixonou-se pela arte e se consagrou na profissão. Hoje habita palcos como o do Theatro Municipal e da Marquês de Sapucaí. Currículo não lhe falta. Josephine, digo, Ana, está muito bem assessorada.

