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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Melão Em Neon: Vamos falar de homofobia?

Em Neon: sexta-feira, 22 de abril de 2016

As pessoas em geral relacionam homofobia apenas com violência física ou verbal, na forma de agressões, ofensas e insultos. Na verdade, isso é apenas a ponta de um terrível iceberg ainda presente em nossa sociedade. Os espancamentos, mortes e ofensas são claramente visíveis. Mas e quanto ao preconceito que ainda se esconde nos subterrâneos de nossa sociedade?

Vejamos como é a vida de um gay desde criança. Na infância, ainda confuso, começa a ser visto de lado pelos colegas por apresentar um comportamento diferente e trejeitos que não condizem com o que se espera de um menino. Primeiro, falam apenas pelas costas, em seguida começam as piadas e, caso ele reaja, acontecem as primeiras agressões físicas. Isso faz com o que o menino, ainda confuso e desorientado (pois as instâncias religiosas de nosso estado laico não permitem o ensino de Educação Sexual nas escolas) se esconda cada vez mais, além de começar a achar que a culpa por tudo isso é dele. Desse ponto em diante, há dois caminhos a seguir pelo jovem gay: ou assume sua natureza, comprando briga com escola, amigos, igreja e família e pagando o alto preço da exclusão total; ou abafa essa condição e passa a viver dentro da heteronormatividade, disfarçando e escondendo qualquer traço revelador de algo diferente disso. E assim começa a vida dupla dessa pessoa.

Quanto à reação das famílias, raríssimas são as que aceitam e/ou respeitam completamente a homossexualidade. Há as que rejeitam totalmente, chegando até a expulsar o homossexual de seu convívio. E há a maioria esmagadora, as que fazem “média”, que sempre começam suas afirmações com “eu não tenho nada contra”, seguido de um “mas”: “mas tem que ser discreto”, “mas não pode virar travesti” e outros absurdos do tipo. Isso quando não fazem comparações esdrúxulas, como por exemplo, “ah, pelo menos não é ladrão, traficante ou assassino”. Sim, gays e seus pares podem conviver no ambiente familiar, desde que não demonstrem afeto na frente deles ou faça qualquer menção explícita ao relacionamento. Ah, e o namorado ou marido é sempre apresentado às visitas como “amigo da família”, embora todos, inclusive as visitas, saibam que isso não é verdade. Eis nossa primeira máscara social.

O próximo passo é sermos banirmos das religiões de origem judaico-cristãs, já que quase todas elas reservam aos homossexuais dois caminhos: o arrependimento ou o fogo do inferno. Mais medo, mais culpa, mais violência, mais preconceito...

Em seguida, vem o ambiente profissional. Raros são os ambientes em que o gay pode assumir sua condição, sem que não sofra discriminação disfarçada de não-promoção ou demissão sumária, obviamente ficando claro que não tem nada a ver com o fato da pessoa ser gay. Então, não nos resta outra opção, senão continuarmos usando nossa máscara social.

Por fim, um terreno ainda mais pantanoso: o dos direitos. Embora o STF já tenha legalizado a união homoafetiva em nosso país, nem sempre é fácil que alguns setores da sociedade aceitem ou reconheçam tal união. Eu, por exemplo, cheguei a ganhar uma promoção de um hotel, mas meu acompanhante e eu não fomos convidados a assistir à palestra junto com os demais casais heterossexuais. Inventaram a desculpa de que nosso guia tinha faltado. A verdade veio à tona quando aconteceu o mesmo com outro casal gay amigo nosso. Coincidência, não? Até mesmo quando se tem o desejo de tirar a máscara social, a sociedade faz questão de que a coloquemos de volta.

Também não somos representados como deveríamos nas telenovelas. A sociedade só aceita na TV o gay engraçado, caricato, que serve de palhaço para divertir as massas. Quando o assunto fica mais sério, a rejeição do público é instantânea. E até hoje discutem se o famigerado beijo gay pode ser mostrado ou não. Interditam o afeto, com a desculpa de que as crianças podem se chocar, embora sejam acostumadas desde cedo com lutas de MMA e games sangrentos. Para nossa sociedade, o amor pode ser algo nocivo, a violência, não.

Portanto, por mais que tenhamos avançado no reconhecimento de direitos e na liberdade de se andar de mãos dadas em alguns poucos lugares (a região da Avenida Paulista é raríssima exceção em nosso país), ainda estamos longe de podermos dizer que não há homofobia no Brasil. As mortes e agressões, que são a ponta do iceberg, continuam acontecendo, mas conseguem gerar alguma comoção popular. Já o restante do iceberg continua invisível, silencioso e fingindo que não existe. Mas pode ter certeza: sentimos isso todos os dias, desde uma simples ida à padaria até uma corriqueira reunião de família. Já estamos condicionados a nos escondermos, até mesmo quando não é necessário. Fico feliz que a geração seguinte à minha já não tenha esse tipo de pudor. Felizmente, os mais novos já demonstram seu afeto em público sem maiores constrangimentos (para eles, não para a sociedade, que ainda os olha de lado).

Por esses e por outros motivos, entendo o cuspe de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro, homofóbico notório, no último domingo, dia 17 de abril de 2016, durante a fatídica e vergonhosa votação pelo impeachment da presidenta Dilma. Diante do massacre visível e invisível, do apagamento de nossa real personalidade, de nossa cidadania dada pela metade e das milhares de agressões físicas e psicológicas pelas quais sofremos diariamente, a cusparada até que saiu barata. E continuará barata enquanto o medo, a culpa, a violência e o preconceito dominarem nosso cotidiano.

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Fotos: Mads Nissen / Reprodução

Por: Vitor de Oliveira - CLIQUE AQUI e leia mais artigos do autor

Vitor é Roteirista, escritor, professor e dramaturgo. Criador do blog “Eu prefiro melão”, um dos pioneiros a publicar textos de conteúdo próprio voltado para o universo da teledramaturgia, que deu origem ao seu primeiro livro “Eu prefiro melão – melhores momentos de um blog televisivo”. Colaborador da nova versão de “O astro” (2011), novela de Janete Clair, adaptada por Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, premiada com o “Emmy Internacional”. Foi colaborador da novela "I Love Paraisópolis". No cinema, foi roteirista dos curtas “Corra, Biba, Corra”, “Metade da Laranja”, “12 horas" e "A Maldição da Rosa". Autor de três peças de teatro: “O que terá acontecido a Nayara Glória?”, “Mãe” e do infantil “A bola mágica”.
 
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