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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Beto Papo: A velha do piano

Em Neon: sexta-feira, 4 de setembro de 2015

“Pelo galo não cantar, o dia não vai deixar de raiar”.
Li em voz alta a frase retirada do livro “Almanhaque” do Aparício Torelli (Barão de Itararé). Tornei a repeti-la, enquanto Simone me trazia um copo com água. Eu acabara de chegar esbaforido ao seu apartamento em Ipanema.
- Pronto. Eis a frase do nosso dia.
Aquilo se convencionou. Todas as vezes que eu adentrava o apartamento dela, abria displicente aquele livro e colhia uma frase no rodapé da página, como uma forma de celebrar nosso encontro. Minha loura companheira de bagunças veio com a novidade:
- Você não imagina o que eu descobri. Sabe o Cassino Atlântico? O shopping?
- Sei. O que tem?
- Tem uma velha tocando piano lá na meiuca, de tarde.
Achei graça daquela frase: “Uma velha tocando piano lá na meiuca”. Ela riu junto.
- Um piano naquele shopping sem graça?
- Vamos até lá ver? Que tal? Alayde vai também. Já deve estar chegando.
Topei, apesar de surpreso. Simone não era muito fã de sair com dia claro.
Animada, foi lá dentro vestir a bata indiana colorida, espetou o brinco de pena de pavão, que eu lhe dera de presente, e cobriu os lábios com um batom vinho. Assim que a amiga Alayde chegou, rumamos para o Posto Seis de Copacabana. Já na entrada do shopping, ouvimos o dedilhado de música se espalhando por aquele espaço de lojas, a maior parte delas voltada para estrangeiros, agências de viagem e câmbio, comércio de pedrarias e artesanatos caríssimos. Descemos a escada rolante.

Na praça de alimentação no subsolo, mesas e cadeiras vazias indiferentes ao piano, que era executado com maestria por uma senhora vistosa, o cabelo caprichado no laquê. Sentamo-nos numa mesa bem ao seu lado, pedimos cafezinhos ao entediado garçom e nos aquietamos, ouvindo e analisando a gravidade daquela fisionomia com os olhos cravados nos desenhos do pentagrama, mãos magras e ágeis, divididas entre as carícias no teclado e a virada de página.

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Quando a música terminou, aplaudimos.
A senhora ruborizou-se com o inusitado, porque aplausos não aconteciam ali. Fez breve movimento de cabeça para agradecer, remexeu partituras e mandou outra mais lenta que aquela. Repetimos as palmas no final, com o eco delas se espalhando, indo lá para cima, para o piso principal. Pessoas surgiram nas grades curiosas.

Uma terceira música veio. Depois outra e mais outra. Todas lindas, mas lentíssimas. E nós lá no incentivo. A questão é que, a cada número executado, uma tristeza profunda foi se apoderando da gente. Tínhamos chegado tão animados ali, mas, no decorrer da récita, a melancolia bateu junto com uma sonolência que outro café não cortaria.

Se havia algo a se cortar, seria o pulso.
- Tá me dando vontade de chorar – disse Alayde.
- Em mim também – concordou Simone, soltando um breve riso.
E a pianista concentrada, taciturna, triste, tristonha, tristonhezima, tristonhenhezima.
O lindo virara chato. Chato demais. Antes que cometêssemos suicídio ou assassinato, esperei o último acorde da marcha fúnebre para propor:
- Que tal uma coisa mais alegre? Uma valsa animada... Sei lá, uma...
- Achei que vocês estavam gostando – cortou a artista, um pouco amuada.
- Estamos gostando sim. Mas, que tal dar uma variada no repertório? A senhora toca outro gênero?
Ela remexeu nas partituras e perguntou:
- O que sugere?
Antes que eu dissesse, mandou com maestria o “Noturno” de Chopin. Enveredou para “Quatro Estações” de Vivaldi. Imediatamente, recordei-me de uma amiga querida, a excelente pianista Beatriz Licursi, grande intérprete de Ernesto Nazareth. Sugeri um chorinho e ela atacou “Odeon”, do referido compositor, emendando com “Atraente” da Chiquinha Gonzaga. Percebi gente espiando de novo lá em cima. Recuperávamos o fôlego dos aplausos. Ela animou-se, ainda mais quando novos ouvintes, perto de uma dezena talvez, se ajeitaram naquelas geladas cadeiras de alumínio.

Vieram assobios e gritos de “Bravo”.
Fiquei imaginando a razão de tão sóbria senhora tocar num ambiente daqueles. Não combinava com ela. Uma praça de alimentação imensa, fria, inóspita.

Antes de comunicar o breve intervalo, dedilhou famosa composição de Scott Joplin.
Nossa “entertainer”, nesta altura do campeonato, transformara-se por completo. Deixara a sisudez e sorria contente, sempre agradecendo com seu movimento tímido de cabeça. Veio sentar-se conosco.
Maria Edilza, este era seu nome, enviuvara de pouco e morava num quarto e sala na Rua Julio de Castilho, na companhia apenas de um poodle já velhinho. Uma amiga a recomendou à administração do shopping para “alegrar” as tardes de quinta-feira, uma distração para aquela que, além do marido, perdera um filho em acidente de carro. Nossa nova amiga embaçou os olhos ao relatar o fato. Tratei de quebrar o clima:
- E MPB? Toca um Chico, um Caetano?
- Puxa... Seria ótimo! – animou-se Alayde.
- Pô! Só falta vocês quererem que ela toque samba e funk – brincou Simone.
- Funk não – respondeu Edilza na calma – Mas farei uma surpresa para vocês.

Voltou ao piano, recolheu aquele bolo de partituras velhas e enfiou tudo numa bolsa. Pôs as mãos no teclado e “Minha Namorada” do Carlos Lyra e Vinícius se fez presente. Nós cantamos quase aos berros e o público, que crescera, fez coro. Uma lista de pedidos foi desfiada. Mais meia hora, eu já estávamos de pé, agarrados ao piano e cantando “Foi um Rio que passou em minha vida” do Paulinho da Viola.

Extrapolamos limites e o horário da audição.
Maria Edilza fechou o piano, recolheu seus pertences e nós a acompanhamos até a rua para beijos e abraços calorosos.
- Valeu pela força – agradeceu emocionada – Estava precisando da alegria de vocês.
- Nós é que agradecemos pela tarde maravilhosa. E voltaremos na próxima quinta.

Cumprimos o prometido e retornamos na semana seguinte, inspirados pela frase “Ingratidão é apenas falta de memória”, colhida do “Almanhaque”.

Assim que chegamos ao shopping, percebemos mudanças radicais na nossa concertista. Usava roupa mais descontraída e o cabelo se livrara do laquê. As melodias tristes de outrora deram lugar a “Chega de Saudade” do Tom e do Vinícius.

Ao nos ver, os olhos dela se iluminaram. E a alegria se repetiu. Porém, ficamos algum tempo sem podermos voltar lá. Coisas da vida ou por esquecimento mesmo.

Até que um dia, combinei nossa ida ao Cassino Atlântico. Eu iria direto de casa. Mal atravessei a porta corrediça do shopping, notei o silêncio. Desci a escada rolante e vi apenas Simone tomando seu café num mar de mesas e cadeiras desocupadas.
- O que aconteceu? Cadê a Dona Edilza? Cadê o piano?
- Não sei. Esse garçom com cara de bunda não sabe explicar. Acho que foi demitida.
- Caramba... Que pena. E nem pegamos seu telefone.
- Será que a culpa foi nossa?
- Culpa? Culpa de que, Simone?
- Sei lá. Ficamos aqui pedindo sambas e no maior carnaval com a velhinha, coitada.

Pedi meu café e o sorvi refletindo sobre aquele vazio, as lojas praticamente desertas, mas funcionando normalmente, como sempre.

Lembrei-me da frase colhida de quando estivemos pela primeira vez naquele shopping. Realmente, com ou sem o som do piano da Dona Edilza, nada mudaria ali. A vida segue e o sol vai raiar inevitavelmente. Pagamos a conta e saímos lamentando muito. Assim que entrei no apartamento de Simone, como não podia deixar de ser, abri o livro do Barão de Itararé.
E a frase do nosso dia era:
“Este mundo é redondo, mas está ficando chato”.

Imagens: Reprodução Internet

Por: Beto Caratori - CLIQUE AQUI e confira outras crônicas deste colunista


Beto Caratori, escritor, jornalista, compositor e cantor, que atuou no movimento musical que revitalizou a cultura no bairro carioca da Lapa.
 
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