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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Literatura: Símbolo fálico é revisto em poesia

Em Neon: segunda-feira, 6 de outubro de 2014



Querer rever gênero e sexualidade utilizando a “neca” (termo utilizado para definir pênis no meio LGBT) como mote para fazer poesia foi o desafio que se impôs Moisés Guimarães, roteirista mineiro autor de “Neca Faloônica”. O autor se inspirou na linguagem de gueto que a comunidade LGBT do Brasil, principalmente dos grandes centros urbanos como Rio, São Paulo e Belo Horizonte, utilizam para nomear o falo masculino. Curioso foi descobrir que existe um dicionário com todos os vocabulários – o bicholês – que fazem a comunidade LGBT estabelecer um dialeto único e rico, ressignificando-se o papel social desses atores.

"Neca Faloônica" é a estreia na poesia desse autor mineiro de 38 anos que nasceu em Divinópolis, Minas Gerais e que radicou-se no Rio. Leitor assíduo de sua conterrânea Adélia Prado, de quem tem profundo respeito e admiração, Moisés Guimarães sofreu grande influência da poesia do também mineiro Affonso Romano de Sant’Anna e de Ferreira Gullar, precursores, por assim dizer, do seu processo de criação. “Sempre gostei do tom político, inquietante, quase doutrinador, que os poemas de Affonso Romano de Sant’Anna causavam - e ainda causam - em seus leitores. O processo métrico e meticulosamente articulado por Gullar em sua poesia, também me serviram de base para pensar o ritmo como força motriz da poesia. Impossível não associá-lo ao ritmo, a musicalidade que o texto pede, são coisas, a meu ver, indissociáveis”.

O livro "Neca Faloônica" ganhou recente versão bilíngue pela Editora Metanóia e pode ser encontrado facilmente na livraria Cultura ou no site da Amazon do Brasil. O leitor conhecerá personagens fortes como Gerusa, o homem pedra-sabão e verá sob as lentes do roteirista da peça teatral “A peruca loura de Álvaro Campelo” um outro Calígula, em que seu poder se encontrará premente em seu falo-power.

Moisés Guimarães em noite de autógrafos na Livraria Cultura
Quem conhece a obra de Jean Genet, escritor francês que debruçou muito sobre a literatura homoerótica, verá um poema dedicado ao seu livro “Nossa Senhora das Flores”, publicado em 1948, em "Neca Faloônica" (Ed. Ibis Libris). “Fazer o poema Divinas da Noite foi para mim um momento especial porque a personagem Divina, de Jean Genet, me encantou de primeira vista. Para àquela época, Genet era muito mais contemporâneo do que poderiam muitos jovens da geração “Y” imaginar. Não à toa, Jean Paul Sartre lhe expande à cena literária, e o filho de uma prostituta se torna o mais referenciado nome da literatura queer”, complementa Moisés Guimarães.

 “Na noite, suas formas delineiam,
 Incitam!
 Salientes mastros buscam liberdade
 em calças jeans sem calibragem.”
 (fragmento de Divinas da Noite, por Moisés Guimarães).

O livro tem prefácio assinado pela travesti espanhola, Dália Von Monfort e conta ainda com comentários do Prof. da Escola de Biblioteconomia da UniRio, Fabrício Silveira. Polêmica entre seus pares, Monfort aceitou o convite para o livro por ser uma “bandeira dos direitos humanos”. Num dos trechos do prefácio, Monfort afirma que esse fascínio que o falo exerce sobre os povos foi apropriado por diversos estudiosos para entender como nos constituímos enquanto seres humanos dentro de uma centralidade de valores e desejos. Monfort possui longa trajetória de amizade com o autor e acredita que seu trabalho poderá ser apreciado por diferentes públicos que se interessam por uma poesia engajada, que não somente a estética que a obra pressupõe.

Incrível a arte de Moisés em poetizar o falo sem vulgarizar, beirar o pornográfico ou algo de mau gosto. "Neca" é de uma leitura gostosa e prazerosa (sem querer fazer trocadilhos). Há um tom de ironia que permeia os poemas de Guimarães em relação aos padrões que limitam as variantes de gênero e de sexualidade. Uma leitura em que coabitam renúncia e liberdade.

"Neca Faloônica" faz parte de uma trilogia poética que compõe conceitos e valores a partir da diversidade sexual. Em 2015 já estão previstos mais dois livros de Moisés: "Quenda, Maria" e "O Mistério da Mona Ocó".

Você pode adquirir seu exemplar de "Neca Faloônica" clicando AQUI.

Confira três poemas do livro:

Neca Delirante
(Moisés Guimarães)

Um volume passeia
Sobre pernas andantes
No caminho para casa
Saliente como antes.

Sinuosa bacante
Espreita ao muro a admirar
A Neca passante.

Do outro lado da rua
Simonini saia-cortada
Acompanha conformada
o manejo que segura.

- É a Neca Delirante!
Neca Delirante!
Que passeia sem comando,
Feito Quixote sem governante!

Num campo ofertante
Arrastadas pela praça
Assinam a brincadeira
Entre bichas, malandros e sapatas.

Neca Delirante!
calças justas lhe faz Creonte
Carvalho-nave, canto rompe:
Serviu bofe, toma a fronte!

Pernas-braços aprazeiam
Dos solteiros-castos que nomeiam
Noite dia de terreiro
Batuque milonga, forasteiros!

E a mão que passeia
Segura a Neca e o que queira
Achas-te, sandália-beira?
Semeia desejo, suor, moleira.

Imprime neste corpo
O uivo, a símile cega aviltante!
Sombreiros do dia,
Neca Delirante!

O Sedutor
(Moisés Guimarães)

Cruzaram-se pela rua.
Cabeças sinalizaram.
Deram uma volta, 
Cochichos, disfarce.

Num ponto cego
Entra e sai,
Pára.

um farol de carro,
um poste
face iluminada numa cena forjada.
Cigarro à boca,
Perna cruzada,
Prenunciam o movimento na genitália.

Somam-se galanteios,
Risos descompassados,
Barba entrelaça as mãos ásperas.
Sorriso sedutor
saneiam-se esperanças 
do próximo contratador.

Experimento 2
(Moisés Guimarães)

Moças
ostras
rochas
Experimento.

Como monossílabos
No experimento.

Talho retóricas
Descompassadamente.

Fátima chegou?
Recaída
no ressentimento.

Imagens: 
Foto dos livros - Eduardo Moraes
Foto do autor - Livraria Cultura


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