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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Choque Rosa: Pensando os rumos do Movimento LGBT... E agora? Pra onde vamos?

Em Neon: quinta-feira, 30 de outubro de 2014



Os crimes de homotransfobia continuam a crescer no Brasil, segundo a Frente Paulista Anti-Fascista - FPAF é crescente a  organização de grupos e coletivos de caça a homossexuais, lésbicas e transexuais. O Congresso vive seu momento mais conservador, com aumento das bancadas da Bala (policiais, militares e afins), fundamentalista religiosa e conservadores de todos os tipos.

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O pensamento conservador tem emergido das entranhas da população, desde o senhor, pouco estudado casado com minha avó, até os coletivos que desfilam em defesa da pátria e da família no centro de São Paulo.  Segundo Miriam Grossi (foto), em ensaio publicado no Jornal francês Le Libération "Les évangéliques brésiliens à l'assaut de la sexualité" o Brasil tem vivido uma onda de crescimento do pensamento conservador,  que tem se manifestado com grande força política no Congresso Nacional, e também com grande poder econômico. O centro deste pensamento conservador está com os movimentos e grupos neo-petencostais fundamentalistas, que cresceram cerca de 61% entre 2000 e 2010, segundo dados do IBGE.

Tenho a impressão que é, neste período, que as pautas políticas são deslocadas do campo da economia e da política social, para o campo da moralidade, o campo do governo sobre os corpos e condutas ético-morais das pessoas. A problemática de tal condição de Guerra Cultural é a impossibilidade do diálogo pacífico ou do diálogo que construa políticas para atender às minorias sexuais, de gênero ou às pautas feministas, como a legalização do aborto, uma vez que os interlocutores partem de noções morais antagônicas.

Com isso, percebemos que, em termos de "terreno", o movimento LGBT tem perdido. Nossas batalhas, ao longo dos últimos anos foram ganhas no Judiciário. As eleições nos trouxeram cisão, entretanto, precisamos compreender que  não há possibilidade de efetivação de conquistas e direitos, enquanto o poder executivo estiver refém da governabilidade (necessária). O que devemos então fazer?

Acredito que o primeiro passo seja um voltar-se para a história e identificar, ao longo do tempo, o que combatemos (mesmo antes de existirmos enquanto um movimento articulado). Gostaria, a grosso modo, e por preferência didática, de dividir o processo de sujeição e punição dos homossexuais e desviantes sexo-gênero ao longo da história, considerando que houve, ao longo da Idade Média a caça aos "sodomitas" e as "safistas", homens e mulheres homossexuais, naquele momento havia o poder da Igreja como mecanismo de sujeição, e além dele, é claro, o poder das verdades biblicamente produzidas (a abominação, o pecado, a perversão); Na Idade Moderna e fim da Idade Média percebemos que os desvios da heterossexualidade (ou do sexo " natural") é convertida para a esfera da judicialização, passa a ser "crime", não apenas um crime contra a Igreja ou contra as normas de Deus, mas um crime "contra-natura", contra a natureza. Punido com morte, ou isolamento.

A Leucotomia, utilizada no passado para"curar" a homossexualidade, é considerada até hoje um dos maiores erros da história da psiquiatria em todo o mundo

No século XIX, percebemos o deslocamento para o campo psiquiátrico. Os desvios, notadamente a homossexualidade, passam a ser patologia e permanece como tal até os anos 80 do século XX. Durante este período se organiza o ativismo LGBT, inicialmente com pequenos grupos na Alemanha, depois nos EUA (Sociedade Matachine) e de forma mais clara e radical, após os anos 70, com a Revolta de Stonewall nos EUA, quando centenas de gays, lésbicas, travestis, drag queens decidem recusar-se a sair do Bar e resistem a violência policial e a prisão.  Vale ressaltar que a transexualidade, ainda hoje, é considerada uma patologia.

Penso que a homotransfobia, tal qual a enfrentamos hoje, é a sobra sistêmica dos mecanismos de repressão às sexualidades que foram historicamente construídas. Não vejo, como diria Hannah Arendt (foto) - em relação aos judeus - em "Da violência"  que haja ainda hoje o mesmo tipo de homotransfobia que existiu durante a Inquisição, ela não é mais preenchida da vigorosidade de uma crença ou de uma condenação real, ela é preenchida pela tradição do saber-fazer-agir em relação ao tema, esta tradição permeia nossas instituições e subjetividades.

Quando me proponho a pensar em um rumo para o movimento LGBT, estou a dizer, também, que precisamos pensar: O que estamos combatendo hoje? Combatemos apenas os atos de morte? Ou há todo um processo midiático sistêmico e atomizado de homotransfobia que precisa ser combatido? Com quais instrumentos faremos isso? É preciso, como já disso noutros momentos, que o ativismo LGBT se estruture e comece a pensar em acumular capital político para disputar espaços de poder, e então fazer frente, no que diz respeito à política, ao Congresso conservador e aos crescentes discursos e grupos proto-fascistas.

Acredito que este seja um momento crucial para todo o ativismo LGBT, pois estivemos na pauta nas últimas eleições, e nossa luta, agora, deve ser por estruturação, construção de um contra-discurso, superação das cisões eleitorais e, sobretudo, conquista de espaço político.

Imagens: Reprodução

Por: Fernando Vieira

Fernando, tem 23 anos é gay genderfluid, ativista LGBT, professor de Língua Portuguesa, e atualmente dedica-se aos Estudos de Gênero da Teoria Queer. Tem influências de Deleuze e Foucault, e lhe agrada Slavoj Zizek e Lacan. Busca simplificar o obscuro jargão pós-moderno, e deseja, com seus textos, propor reflexões que possam produzir caminhos.
 
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