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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Teatro: Entrevista exclusiva com Maite Schneider que estreia peça de Gógol, em Curitiba

Em Neon: quarta-feira, 6 de agosto de 2014


Maite Schneider na apresentação do Coletivo Suruburbana durante a VI Conferência da APP - Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná






Viver de arte no Brasil é um ato heroico, pela falta de incentivo, de patrocinadores e às vezes, até, de público. Imagine então para uma atriz transexual, que enfrenta inúmeras barreiras e "nãos" pelo caminho?

Nossa entrevistada Maite Schneider é uma dessas guerreiras que não sucumbem ao primeiro "não" e continua a dedicar-se com verdadeira paixão à sua arte: o teatro.

Maite é uma estrela e atriz incansável, que arrasa em suas performances e nos palcos. Sua agenda é cheia e ainda esse ano, ela fará um monólogo.

Nessa quarta-feira, 06/08, ela estreia a peça “À Saída do Teatro Depois da Apresentação de uma Nova Comédia”, do russo Nicolai Gógol (1809-1852), no Teatro Falec em Curitiba.

Maite nos concedeu uma entrevista falando do espetáculo. Confira:

"À Saída do Teatro Depois da Apresentação de uma Nova Comédia" estreia em Curitiba
Em Neon: Me fale um pouco como nasceu esse projeto?
Maite Schneider: Este novo projeto dá continuidade ao trabalho de pesquisa do encenador paranaense Cesar Almeida, sempre com sua visão crítica e particular, vem através desse "À Saída do Teatro Depois da Apresentação de uma Nova Comédia"  fazer um retrato do público de teatro dos nossos dias, analisando o comportamento do artista versus espectador em sua eterna batalha de aceitação mútua.

EN: Como é a aceitação do público curitibano a esse trabalho de crítica da crítica atual?
MS: O público em geral se vê imediatamente identificado. Quer seja rindo de si mesmo, por já pensar ou ter falado coisas que ousamos colocar em cena, quer seja pela abertura que damos a ele. Em nossos espetáculos, o público pode tirar fotos, gravar vídeos, interagir como quiser. Creio que isto que nos faça estar cada vez mais próximo deste expectador. Já o público que faz teatro e vai nos assistir, ainda tem uma resistência muito grande com nossas encenações e com as coisas que falamos.

EN: Você crê que os ruídos de outros tipos de arte, como TV por exemplo, tem afastado o público do teatro?
MS: Creio que não. Percebo que as pessoas gostam de ver algo que as motive e estimule de alguma maneira, seja através da comédia ou da tragédia. Quem vê uma vez uma peça de qualidade no teatro, torna-se fã. É algo viciante. O teatro é a única arte que estimula a troca direta e real, no calor daquele acontecimento único.  O suor, o improviso, a respiração. Tudo no teatro é único. O teatro é a única arte 4D de verdade. E dificilmente será substituído por algo.

EN: O público tão crítico está carente de uma autocrítica?
MS: A autocritica tinha ser uma tecla que todo mundo deveria usar sempre.  Deixar ela ligada e não esquecê-la. Somente quando nos questionamos é que podemos evoluir. Somente quando nos analisamos é que podemos amadurecer.  Pensar sempre, para que possamos existir sempre. O fazer teatral também anda com esta tecla bem esquecida e criando teias de aranha.

EN: Você acha que a magia do teatro ainda é valorizada?
MS: Como disse acima, acho sim. É uma arte muito singular e com características muito próprias e que, quando bem utilizamos, tornam a viagem teatral uma experiência inesquecível.

EN: Essa peça mexe com o público de forma direta, algo provocativo, isso é de fácil assimilação do mesmo ou algo para se pensar muito até “cair a ficha”?
MS: Dificilmente “a ficha” cai na hora, pois usamos de muitas metáforas, ironias e algumas sutilezas. Outras vezes falamos de maneira tão direta e escrachada, que o público também não acredita que tivemos coragem de falar em cena aberta, o que o próprio publico pensa. E tende a não ter a real percepção de tudo. A maioria do nosso público vai assistir mais de uma vez ao espetáculo, traz mais amigos e amigas, manda mensagens, quer conversar. Nossa peça não para na própria peça. E gostamos deste sentimento...

EN: É um espetáculo para um público específico ou para um público geral?
MS: Para um público que gosta de divertir-se, em primeiro lugar. Que queira trazer um pouco de alegria ao seu cotidiano. Fazemos arte para entreter, mas nunca esquecemos do caráter político e todo o contexto que estamos inseridos. Todos os atores da Companhia Rainha de 2 Cabeças têm uma militância individual muito grande nas mais variadas áreas em prol de um mundo mais igualitário, respeitando-se a diversidade que somos. Este fator faz com que o espetáculo traga também muito de quem somos aos personagens que estão sendo expostos ao público.

EN: Os textos gogolianos são inovadores e trazem enredos com personagens inusitados dando uma riqueza enorme a uma montagem teatral. Para o exercício de ator, qual o maior desafio de montar Gógol? 
MS: Na verdade, neste processo, Gógol entrou como um grande presente, trazendo para nossa referência o gatilho para a construção da dramaturgia propriamente dita. É claro que os personagens tem facetas muito inusitadas, são caricaturescos e exagerados em vários momentos. Mas na vida também é assim. Tenho certeza que o público irá, mesmo nos absurdos que parecem colocados em cena, encontrar fontes de observação real de tais atos no seu dia a dia.

EN: O espetáculo faz uma crítica aos prêmios? 
MS: Sim, trata-se de um jantar da Academia, para entrega do Prêmio de Plástico Pintado de Ouro. Uma grande premiação disputada por todos, mas não somente da classe teatral. Falamos de prêmios de música, de Oscar, de Copas, de medalhas de honra ao mérito. O espetáculo é uma metacrítica teatral, ou seja, é a crítica da crítica. Aquele momento em que todos são críticos de teatro: na saída do teatro. Quando as opiniões são colhidas em seu frescor provocado pela apresentação de uma peça teatral. Aquele momento em que todos se tornam juízes de uma obra de arte, condenando ou absolvendo o pobre autor, como se fossem os verdadeiros donos da verdade, os guardiões do cânone absoluto do fazer teatral. Um momento de pura catarse que não deixa ninguém alheio. Raiva, deslumbramento, amor, ódio, indignação, perplexidade. As mais complexas sensações provocadas por uma apresentação teatral transbordam em nós provocadas pela simples apresentação de uma obra de arte. Que momento mágico!

Em 2012 com o elenco da peça "Sustentando um Sonho Sustentável"

EN: Como está essa sua volta à cena teatral?
MS: Na verdade não é uma volta, pois nunca parei de fazer teatro. Por um tempo fiquei afastada dos palcos, para concluir minha Faculdade de Direção Teatral e aprimorar meus conhecimentos teóricos sobre o fazer teatral. Este ano ainda estive com meu primeiro espetáculo infantil, dividindo o palco com grande elenco e mais 14 crianças em cena e foi realmente um momento mágico e especial em minha vida.  Além desta peça, também estreio em novembro, o meu primeiro monólogo . O espetáculo chama-se “Escravagina” e foi um presente do diretor, dramaturgo e também meu grande amigo Cesar Almeida. Será um ano verdadeiramente especial.

EN: Porque você acha que no teatro há muito preconceito? Você foi descriminada? Fale sobre isso.
MS: Já sim....várias vezes, é claro. Transexuais somente não são discriminadas se não saírem de casa. Trazemos no corpo a construção de algo que a grande maioria acha sujo, maldito, imoral e pecaminoso. E no teatro não é diferente. E é um preconceito muitas vezes velado, feito por pessoas que se dizem super modernas e contra qualquer forma de discriminação. Já tive problemas de patrocinadores que não queriam colocar a logo nos panfletos da peça que eu etava atuando, outras de fazer testes e mais testes e nunca ser chamada em agência nenhuma, até que uma amiga minha (esta sim, considero amiga) me disse: “Maite, não adianta eu te agenciar e te enganar. Fiz uma pesquisa de mercado, e com sua história de vida, nenhum deles iria te chamar para nada artístico”, enfim... esta é a arte que modifica e que se apresenta em pleno século XXI.

Com essa lamentável realidade, que vemos Maite Schneider confessar passar e sabemos que muitas pessoas transexuais passam, o Em Neon finaliza a entrevista e fica feliz em saber que o pessoal da “Companhia Rainha de 2 Cabeças” abre espaço a todos que possuem veia artística, independente de cor, credo, sexualidade... Para eles interessa o artista.

O espetáculo “À Saída do Teatro Depois da Apresentação de uma Nova Comédia” tem o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e conta com os seguintes incentivadores: Consórcio Norvalpa e Senind Engenharia.

Elenco: 
Maite Schneider
Isidoro Diniz
Ludmila Nascarella
Kaley Michelle
Cláudio Fontan
Fernando Cardoso 

Cesar Almeida (que também assina a direção)

Serviço:
Teatro Falec ( R. Mateus Leme, 990 ao lado do restaurante Calabouço)
Temporada: de 6 a 31 de agosto
Apresentações: De quarta a sábado - 20 h - domingo 18h e 20h
Entrada Franca (seu ingresso já foi pago por seus impostos)




Fotos: Joka Madruga / Daniel Assal

Por: Eduardo Moraes

Eduardo Moraes é jornalista formado pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) além de fotógrafo há 15 anos. Em seu curriculum estão o Jornal e Site Abalo, a Exposição O "T" da Questão e o Livro Avesso - Meu Lado Certo. Atualmente é editor-chefe do site www.EmNeon.com.br


 
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