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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Montagem de 7 Gatinhos revisita Nelson Rodrigues a partir de uma forte presença trans em cena e nos bastidores

Em Neon: segunda-feira, 13 de julho de 2026


Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona e Viradas da Encruza encenam clássico; com Jup do Bairro integra a montagem que tem direção de Joana Medeiros

Fotos: Pedro Martins

Em cartaz no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona entre 20 de junho e 16 de agosto de 2026, a montagem de 7 Gatinhos propõe uma leitura contemporânea do clássico de Nelson Rodrigues a partir da presença expressiva de artistas trans em diferentes áreas da criação. Com direção de Joana Medeiros, o espetáculo mantém integralmente a dramaturgia original, mas desloca a ação para um cortiço do Bixiga (SP) e faz das discussões sobre gênero, corpo e patriarcado um dos seus principais campos de investigação.

Para o diretor de cena Gii Lisboa, revisitar Nelson Rodrigues hoje significa justamente confrontar sua obra com subjetividades historicamente excluídas dos palcos. “Ao mesmo tempo que Nelson se mostra muito atual, a gente tem que lembrar que também houve um tantão de montagens dele. Então como reatualizar e renovar Nelson? Nada como irmos ao encontro dele na integridade de nossas subjetividades dissidentes”, afirma o artista. Segundo ele, a presença trans não suaviza os conflitos da dramaturgia, mas potencializa sua dimensão crítica. “Aqui a gente tem total alinhamento da construção em cena desta violência para chegarmos à queda desse patriarca, à execução desta podridão de patriarcado. A presença trans indica também a força dessas dissidências na nossa luta cotidiana em sociedade para enterrar o patriarcado.”

As discussões sobre gênero atravessaram toda a construção do espetáculo. Gii destaca que a própria dramaturgia já aborda temas como o controle dos corpos femininos, a virgindade e as relações de poder dentro da família, mas que a montagem amplia essas questões a partir de experiências contemporâneas. Um dos exemplos está no personagem Silene, interpretado por Zizi Yndio do Brasil. “Na nossa montagem, a gente desvira Nelson apresentando uma Silene trans, que não tem útero e está grávida, e que se diz inclusive ‘até mais mulher’ que as irmãs. Em vez de retalhar a dramaturgia ou apagar suas contradições, respondemos com a própria presença em cena, lembrando ao público que existe mulher sem útero, sim.”

Gii Lisboa, que também faz o personagem Bordalo, ressalta que a presença de pessoas trans tensiona os próprios limites da representação teatral. “Se Nelson já chega com uma dramaturgia para escancarar a família, o ideal burguês e a misoginia, quando acrescentamos artistas trans à nossa montagem também escancaramos a estrutura dos binarismos e da cisgeneridade. Espatifamos o gênero.” Em cena, atores e atrizes interpretam personagens de diferentes identidades de gênero sem buscar uma correspondência naturalista. “O gênero não é impeditivo para se estar em cena. Todo atuante tem alguma possibilidade de encarnar aquelas figuras sem abrir mão do próprio corpo. A gente expande possibilidades.”

Essa perspectiva também alcança a linguagem audiovisual do espetáculo. Responsável por uma das câmeras que operam o cinema ao vivo característico do Teatro Oficina, Luz Barbosa destaca que a discussão sobre gênero atravessa o próprio olhar que constrói as imagens projetadas durante a peça. “A câmera nunca é neutra. Ela é uma ferramenta de poder e aponta para o que deve ser visto”, afirma.

Ao lado de uma segunda câmera e de uma operação de corte realizada ao vivo, Luz ajuda a construir imagens que comentam a ação dramática, ampliando relações de poder e produzindo novas leituras sobre os personagens. “Sobrepor Aracy em cena com uma projeção enorme de Noronha evidencia a relação de poder. Enquadrar Silene com uma auréola de luz beatifica a Silene travesti que traiu a expectativa de pureza aplicada ao feminino. Filmar Noronha do alto do terceiro andar, aos olhos de Deus, ou transformar Bibelot em um sex symbol também produz sentidos. O elenco contracena não só entre si, mas com essas telas preenchidas por intenções.”

Para Luz, a participação de artistas trans no processo não está ligada a uma lógica de inclusão simbólica, mas à potência crítica que essas vivências trazem para a discussão. “A presença de pessoas trans deve ser considerada em todos os processos. Em 2026, nos próximos e pagando a dívida dos anos anteriores. Já estamos em atraso.” Ele acrescenta: “Pessoas trans cruzaram fronteiras, passaram pela migração, negaram o gênero imposto. Isso amadurece a discussão. Não significa que pessoas trans sejam isentas de falhas, mas que precisam ter lugar na mesa se você não quiser discutir gênero de forma rasa.”

Ao colocar corpos trans no centro da cena e também nos mecanismos que constroem o olhar sobre ela, 7 Gatinhos transforma uma das obras mais conhecidas de Nelson Rodrigues em um campo de disputa sobre quem pode representar, narrar e ocupar determinados espaços. Sem alterar uma linha da dramaturgia, a montagem responde ao autor a partir da própria presença de artistas que desafiam as normas de gênero e ampliam as possibilidades de leitura de um clássico brasileiro.


Sinopse

Dona Aracy, a Gorda, e Seu Noronha, contínuo da Câmara dos Deputados, vivem num cortiço do Bixiga com suas cinco filhas. Entre silêncios, tapas, gritos e pequenas barganhas, o pai fecha os olhos para os rumos que cada uma toma, contanto que a engrenagem da casa continue girando.

Mas é a virgem Silene — guardada em um colégio interno como promessa de pureza e futuro — que desmancha o equilíbrio frágil da família. Seu retorno inesperado desencadeia tensões que transbordam os limites da casa, trazendo à tona todo mal cheiro e podridão que se escondiam nas frestas do cortiço.

O público está envolvido pelos habitantes desse cortiço, são testemunhas e cúmplices dos crimes, numa proximidade promíscua, ou no mínimo duvidosa.

No coração do Bixiga, uma família apodrece em um retrato fiel de uma sociedade inteira.


FICHA TÉCNICA

TEAT(R)O OFICINA UZYNA UZONA

VIRADAS DA ENCRUZA

Dramaturgia: Nelson Rodrigues

Direção: Joana Medeiros

Assessoria de direção: Ana Clara Cantanhede y Victor Rosa

Atuação: Ana Clara Cantanhede, Bianca Terraza, Gii Lisboa, Henrique Maria, Joana Medeiros, Larissa Silva, Marina Wisnik, Raphael Calheiros, Victor Rosa, Viviane Clara Gangá, Zizi Yndio do Brasil

Cantora do cortiço: Jup do Bairro

O Ponto: Artur Medeiros

Banda: Adriano Salhab, André Santana, Fefê Camilo, Victor Rosa

Direção Musical: Adriano Salhab y Viradas da Encruza

Sonoplastia: Adriano Salhab y Nine

Desenho e operação de som: Nine

Técnico de som: DJ Clevinho y Julia Ávila

Bateria Mirim do Vai-Vai

Diretor Musical do Vai-Vai: Danilo Alves

Direção de Cena: Gii Lisboa, Larissa Silva

Direção de Arte y Cenografia: Alex de Tata y Viradas da Encruza

Direção de Luz: Angel Taize

Operação de foco móvel: Adler Cristian, Afonso Costa, Felipe Soares, Victória Pedrosa

Direção de Comunicação: Zizi Yndio do Brasil

Assessoria de Comunicação: Ana Clara Cantanhede

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto Comunicação

Fotografia: Pedro Martins

Desenho e Operação de vídeo: Diego Arvate

Câmera ao vivo: Aleph Antialeph, Lufe Bollini, Luz Barbosa

Camareira: Sellma Paiva

Contrarregras: Artur Medeiros, Rafael Castilho, Yan

Produção: Sônia Esper y Raphael Calheiros

Produção de Campo: João Estevão

Assessoria de produção: Victor Rosa, Zizi Yndio do Brasil

Produção Executiva e Administração Teat(r)o Oficina: Anderson Puchetti

Bilheteria: Artur Medeiros, João Estevão, Rafael Castilho, Sônia Esper

Figurino: Arianne Vitale y Casa de Acervo Oficina

Assessoria de Figurino: Mandy Justo

Objetos de cena: Arianne Vitale y Casa de Acervo Oficina

Maquiagem: Erica Gabriela y Zizi Yndio do Brasil

Bombeira: Amanda Aguiar

Conselheira-poeta: Camila Mota 

Conselheiros Poetas Cósmicos: Catherine Hirsch, Denise Assunção,Vera Valdez, Zé Celso Martinez Corrêa y Zuria

Apoio de Monique Gardenberg

FICHA TÉCNICA DA CASA DE ACERVO OFICINA

Gestão: A Arte da Direção de Cena

Consultoria de Preservação y Restauro do Acervo: Claudia Nunes

Diretor Executivo da Cia: Anderson Puchetti

Camareira Guardiã dos Figurinos: Cida Melo

Alessandra Cavaco, Elisete Jeremias, Bianca Terraza, Gii Lisboa, Fernanda Pappalardo, Isabela Porto, Mabel Ikeda Alves, Larissa Silva,  Thamires Marquês, Victor Rosa, Zizi Yndio do Brasil. 

APOIOS

Beale Bebidas, Casa de Acervo. Oficina, Centro de Memória do Circo, Cordeiro Lima, Dueto Produções, Mercadinho Monteiro, Mercado Condemerc, Piolin, Oplay Mercado, Sacolão Bela Vista, Start Clean Fa beleza, Fabio Araujo e Kazuo Ota

AGRADECIMENTOS

Aboud, Alex de Tata, Cafira Zoé, Camila Mota, Cesalpina, Cris Cordeiro, Cristiano Vieira de Lisboa, Dan Salas, Diego Monte, Fernanda Araújo, Giovanna Barros, Igor Marotti, Joel Carlos, Juraci Vieira, Lidia Lisboa, Marília Piraju, Marli dos Santos Lima, Monique Gardenberg, Vera Valdez, Verônica Tamaoki, Paloma Silva, Roseli Aparecida Ferreira de Oliveira, Saphirah, Vick Nefertiti e Water Mancini

SERVIÇO

7 GATINHOS

Duração: 150 minutos | Classificação: 16 anos

Temporada estendida:

Data: 20 de junho a 16 de agosto de 2026

Sextas e sábados, às 20h e domingos, às 19h*

Local: Teatro Oficina - Rua Jaceguai, 520 – Bixiga, São Paulo, SP

* Nas sextas dias 17, 24 e 31/7 não haverá sessões.

Ingressos vendidos pela Sympla, por lotes:

R$ 100 | R$ 50

ENXOVAL DE SILENE (ingresso de apoio ao espetáculo) - 150 reais 

Ingressos disponíveis enquanto durarem os estoques. 

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