Fotos: Higor Nery
Sob direção de Dadado de Freitas, o texto escrito e encenado por Leandro Fazolla e Rohan Baruck leva à cena a discussão reflexiva de um casal que, diante uma censura indireta, debate sobre o quão visíveis ou privados podem ser seus afetos.
Qual o problema de um beijo? Por que um beijo ainda hoje pode causar repulsa e espanto? Provocando uma reflexão cênica acerca da pergunta, reestreia dia 31 de julho no Teatro Municipal Ziembinski o espetáculo “Essa peça tem beijo gay”, texto inédito escrito por Leandro Fazolla e Rohan Baruck, que também sobem ao palco sob a direção de Dadado de Freitas. O que poderia ser um ato cotidiano gera um dilema sobre limites pessoais e o impacto das escolhas em um tempo onde o amor entre iguais ainda permanece sob constante suspeita e até vigilância.
A montagem questiona quais afetos podem ser visíveis, quais ainda são interditados e a noção de público e privado, quando decisões aparentemente comuns podem ter desdobramentos maiores do que se imagina. A temática da montagem, comum aos autores e a boa parte da equipe, formada em sua maioria por profissionais LGBTQIAPN+, nasceu do desejo de Leandro e Rohan, um casal também fora de cena, de trabalharem juntos e terem no assunto um mesmo objetivo de debate.
“Fomos atravessados por diversas notícias em que o chamado ‘beijo gay’ estava no centro da discussão, desde a censura do ex-prefeito Crivella na Bienal do Livro de 2019 até o alarde feito na imprensa sobre um ou outro beijo gay nas novelas. E pensamos que este poderia ser um tema a partir do qual poderíamos abordar nossas vivências. Então, desenvolvemos um conflito em que os dois personagens pudessem tensionar sua relação e pensamentos sobre a própria comunidade LGBTQIAPN+”, resume Leandro.
A partir de um conflito central envolvendo dois personagens - uma foto de beijo circulando nas redes sociais - o texto se abre para novas camadas, flertando com a autoficção, trazendo conflitos comuns aos autores, sobretudo a partir de suas origens em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. A dramaturgia problematiza como a visão da sociedade sobre os corpos dissidentes interfere nas vidas e formas de se colocar no mundo.
“Entre naturalização e fetichização, ainda haver uma categoria ‘aceitável’ ou ‘permissível’ de beijo é um sinal do retrocesso que estamos vivendo. Eu pesquiso a cena dissidente e a personagem ‘bicha’ nas narrativas contemporâneas. Ainda ter que discutir o beijo como esse fantasma e num lugar de urgência social me inquieta como artista”, pondera Dadado, que possui longa trajetória na cena queer e que recebeu, junto de Maurício Lima, o Prêmio Shell de Melhor Direção por “Arqueologias do Futuro”.
A dramaturgia também olha para trás a partir de um diálogo com “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, já que muito dessa polêmica parece estar não apenas parada no tempo, mas retrocedendo a partir de um aumento cada vez maior do conservadorismo no Brasil e no mundo. “A mesma homofobia e o mesmo sensacionalismo que pautam nossos beijos hoje interferem radicalmente na vida dos personagens rodrigueanos. A gente acredita ter avançado nessa discussão, mas será mesmo? Olhar pro passado ajuda a pensar um pouco sobre o que mudou e a projetar o que vem pela frente”, aponta Rohan.
Embora se anuncie por um beijo, é um espetáculo que se propõe a falar do amor e de suas idiossincrasias. “O amor numa relação homoafetiva é tão amor quanto em qualquer outra relação. No entanto, ainda é visto como um tema das dissidências, um tema maldito. Então criamos uma imaginação distópica de um futuro não muito distante em que este beijo e estas relações dissidentes permanecem sob intensa vigilância. É uma espécie de ‘e se’ que provocamos através da peça: e se essa onda conservadora ganhasse contornos ainda mais radicais? Nosso público poderá se afetar por personagens em um momento limite que causa uma montanha-russa de emoções. Apenas no meio disso tudo há um beijo gay”, encerra Dadado.
SERVIÇO
“ESSA PEÇA TEM BEIJO GAY”
Temporada: 31 de julho a 19 de agosto
Horário: Sexta-feira a sábado, às 20h; Domingo, às 19h
Local: Teatro Municipal Ziembinski
Endereço: Av Heitor Beltrão, s/n - Tijuca
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 70 minutos
Gênero: Drama
Instagram: @essapecatembeijo
FICHA TÉCNICA
Idealização, dramaturgia e atuação: Leandro Fazolla e Rohan Baruck
Direção artística e supervisão dramatúrgica: Dadado de Freitas
Direção de movimentos: Maurício Lima
Direção Musical: Bèá Ayòóla
Cenografia: Maurício Bispo
Figurino: Flávio Souza
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Direção de produção: Stephany Lopez
Operação de Luz: Rafa Domi
Fotografia: Higor Nery
